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José Roberto de Toledo
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Pelos motivos errados

Pesquisa inédita do Ibope, concluída na semana passada, mostra que 63% dos brasileiros apoiam o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Até aí, pouca novidade. O Datafolha já constatara a ampla maioria antiDilma. A notícia desta pesquisa é que o Ibope perguntou os motivos: "Por qual razão algumas pessoas estão apoiando o impeachment?". A maioria das respostas aponta razões que podem ser justas, mas não estão previstas na Constituição. Se fosse só por causa delas, não haveria base para impeachment.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 05h00

A principal causa citada pelos brasileiros em geral, e em ainda mais pelos que são a favor da retirada de Dilma do poder, é a economia: 31% mencionaram a situação econômica do Brasil, a inflação, os juros e o desemprego. Não é à toa: preços sobem sem parar, há cada vez mais gente sem emprego, os investimentos sumiram e os juros voltaram à estratosfera. Mas não há artigo constitucional que preveja impeachment por incompetência.

E esse parece ser o motivo pelo qual a maioria dos brasileiros quer ver Dilma descendo a rampa do Planalto. Mais 27% disseram espontaneamente ao Ibope que a razão para o impedimento é a má administração, ou, em outras palavras, ela "não está governando o País como deveria". De novo, é justo, mas insuficiente.

É típico do torcedor brasileiro querer trocar o técnico quando o time só perde. Mas, embora a paixão seja a mesma, há mais regras no jogo de poder do que no de futebol. Não fosse assim, a política seria um Brasileirão - um entra e sai de comandantes que não costuma levar ao título, mas ao aprofundamento da crise.

Aos 31% e aos 27% somam-se repostas espontâneas e múltiplas que revelam o clima de Fla x Flu: 4% dizem que o impeachment é para tirar o PT do poder, 2% ficaram insatisfeitos com o resultado da eleição, e mais 2% simplesmente não gostam de Dilma. Fora os 8% que defendem a saída da presidente, mas não sabem dizer por que.

Além dos descontentes com a economia e dos desafetos antiPT, há um terceiro grupo de respostas que revela um sentimento de traição: 6% dizem que Dilma mentiu na campanha eleitoral sobre a situação econômica do país e traiu a confiança da população. A estas, somam-se 2% de citações à redução de benefícios trabalhistas, e 1% que falam que ela não cumpre o que promete.

O quarto grupo de respostas é o segundo em tamanho. São os que mais se aproximam de apontar um motivo previsto na Constituição para o impeachment: 21% citam corrupção (genérica) no governo, 12% falam especificamente da Lava Jato e de roubos na Petrobras e 3% se referem a um suposto envolvimento pessoal de Dilma com corrupção. Mesmo assim, não é por nenhum desses motivos que a presidente pode perder seu mandato. As razões que a oposição tenta emplacar são outras - e que praticamente ninguém conhece.

Apenas 1% dos brasileiros se referiram às irregularidades das contas do primeiro mandato de Dilma, as chamadas pedaladas fiscais - algo que está para ser julgado pelo Tribunal de Contas da União e que o PSDB trabalha para virar processo na Câmara. Menos de 0,5% lembraram de que - nas palavras categóricas do ministro Gilmar Mendes -, "ao que parece, havia, supostamente, entrada ilegal de recursos públicos" na campanha à reeleição.

Se Dilma for impedida por obra do TCU ou do TSE, muita gente vai comemorar. Mas menos de 2% saberão o motivo que permitiu tal comemoração. E daí? O que importa é o resultado, certo? Sim, nisso a política se parece cada vez mais com o futebol: os fins justificam os meios. Mão na bola é só do adversário, para o time mais popular é sempre bola na mão. Há um porém. 

Se a população se acostumar a trocar de presidente como troca de técnico a cada trombada da economia, os próximos no poder enfrentarão uma instabilidade política que tende a perpetuar a instabilidade econômica. É ganhar o jogo e perder o campeonato.

* José Roberto de Toledo é coordenador do Estadão Dados

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