José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

‘Pelo jeito, a Odebrecht se achava dona do País’, diz Haddad

Campanha do petista em 2012 recebeu pagamentos de caixa 2 que somavam R$ 2 milhões, feitos a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; ex-prefeito diz que 'nada disso' chegou aos seus ouvidos

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2017 | 05h00

O ex-prefeito Fernando Haddad (PT) disse que a Odebrecht achava ser “a dona do País”. Segundo as delações de Marcelo Odebrecht e de seu pai, Emílio, a campanha do ex-prefeito em 2012 recebeu pagamentos de caixa 2 que somavam R$ 2 milhões, feitos a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Haddad disse que expulsou de sua sala na Prefeitura um diretor da empreiteira que teria ordenado que ele apresentasse à Câmara Municipal um projeto para beneficiar a empresa.  

Quais as relações da Odebrecht com a sua gestão?

A Prefeitura rejeitou a demanda da empresa para mandar à Câmara um projeto de lei para a recompra dos CIDs (Certificado de Incentivo ao Desenvolvimento, um título público por meio do qual a Odebrecht financiou a construção da Arena Corinthians). O clube sabia do risco quando foi feito o negócio. Houve uma reunião e a terminei de forma abrupta. O Andrés Sanches (deputado federal do PT e ex-presidente do Corinthians) estava lá. 

Por que a reunião terminou?

Porque começou a haver uma cobrança da Prefeitura, como se fosse obrigação nossa resolver o problema. O Luis Bueno, que era um dirigente da Odebrecht, começou a elevar o tom, dizendo que a Prefeitura tinha responsabilidade na solução do problema. Eu falei: ‘Vamos com calma, Luis. Perceba o seguinte: quando vocês assumiram a arena, vocês sabiam dos riscos envolvidos’.

Lula foi citado na conversa?

Não. Em hipótese nenhuma.

Segundo os delatores, Lula arrecadou dinheiro por meio de caixa 2 em 2012. Alguma vez isso chegou aos seus ouvidos?

Nunca chegou aos meus ouvidos nada disso. E seria contraditório com minha atitude. Minha atitude não é de alguém que deve. É de alguém que está defendendo o interesse público. Eu já havia suspendido a principal obra da Odebrecht na cidade (o túnel Roberto Marinho), no primeiro semestre do meu governo. O túnel era uma obra que visivelmente inspirava atenção porque não fazia o menor sentido.

O senhor recebeu pressão no partido para continuar a obra?

Não, mas todo mundo ficou... Sou tratado como um cara exótico.

Alguém do PT pode ter oferecido facilidades no seu governo em troca das doações? 

Não existe doação para campanha que o candidato e seu tesoureiro não saibam. Mas e quando a doação entra via diretório nacional? Se isso aconteceu não passou pela campanha, tanto é que minha reação à proposta que fizeram foi de interromper a reunião e conduzi-los à porta de saída. 

Mas por que um executivo se comportaria como se fosse o dono da Prefeitura?

Pelo jeito, eles achavam que eram donos bem mais do que da Prefeitura. Achavam que eram donos do País. A Odebrecht é uma empreiteira que joga pesado e sabia o poder que tinha, mas eu sabia o que estava fazendo.

Lula pediu doações para sua campanha em 2012?

Nunca vi ou soube do Lula tratar de recurso para campanha de quem quer que seja. Nem para as dele. O que eu sei é como eu agi nos dois casos em que o interesse da Odebrecht conflitava com os interesses da cidade.

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