Reprodução/Twitter Ricardo Barros
Reprodução/Twitter Ricardo Barros

Posse ‘secreta’ de ministra tem a presença de Valdemar Costa Neto, ex-deputado condenado no mensalão

Ex-deputado participa da posse de Flávia Arruda (PL-DF), responsável pela articulação política

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2021 | 10h28
Atualizado 06 de abril de 2021 | 22h53

BRASÍLIA – A entrada do Centrão no Palácio do Planalto, com a posse da ministra Flávia Arruda (PL-DF) na Secretaria de Governo, teve a presença de um novo aliado do governo. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, participou da cerimônia e ganhou espaço de destaque, sentado a duas cadeiras do presidente Jair Bolsonaro. Horas depois, porém, o Planalto removeu de um banco de imagens a foto do ex-deputado.

Costa Neto foi condenado pelo envolvimento no escândalo do mensalão, em 2012, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do qual era aliado. Esteve com Bolsonaro, na semana passada, para agradecer a nomeação de Flávia Arruda, mas não tinha aparecido em nenhuma cerimônia. O Planalto não explicou por que a foto foi tirada. “Parece que a foto ou o vídeo que você está procurando não existe mais”, dizia a mensagem, no fim do dia, quando o site do governo era acessado.

A posse de Flávia ocorreu em cerimônia fechada, sem a presença da imprensa nem transmissão em tempo real. Os discursos foram divulgados horas depois. Flávia será responsável pela articulação entre o Planalto e o Congresso, o que inclui a negociação de verbas para emendas e indicações políticas para cargos. Sua escolha é creditada ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), líder do Centrão.

Além de Flávia, os ministros da Cidadania, João Roma, e das Comunicações, Fábio Faria, também são filiados a partidos do Centrão. A aliança com o grupo contraria o discurso de campanha do presidente. Bolsonaro prometeu não lotear os ministérios em troca de apoio político, relacionando a prática a episódios de corrupção nas gestões petistas. 

Ao tomar posse, a nova ministra não deixou dúvidas do propósito de sua nomeação. A “engenharia política”, segundo ela, é para garantir governabilidade a Bolsonaro. Um compromisso avalizado por Costa Neto. Desde o mensalão, porém, ele atua apenas nos bastidores. A presença do ex-deputado na posse revelada por fotos postadas nas redes sociais, primeiramente por Ricardo Barros (Progressistas-PR), líder do governo na Câmara.

Deputados do PL escalaram Costa Neto para assumir a linha de frente no diálogo com o Planalto. Argumentam que ele está livre e que ninguém pode pagar uma pena eterna. “Ele não se furtará de cumprir a agenda protocolar e obrigatória de sua função”, disse a assessoria do presidente do PL.

Além do presidente do PL, Bolsonaro tem como um dos principais aliados outro condenado no mensalão: o também ex-deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB. Foi uma entrevista de Jefferson em 2005, na qual denunciou a compra de apoio político pelo então aliado governo Lula, que desencadeou as investigações do caso de corrupção. Tanto PTB quanto PL fizeram parte das gestões petistas, comandando ministérios e órgãos importantes na administração pública.

A aproximação de Bolsonaro com o Centrão ocorre desde o ano passado, após o presidente sofrer sucessivas derrotas no Congresso e se ver ameaçado por um processo de impeachment. Desde então, passou a entregar cargos no segundo e terceiro escalão do governo a nomes indicados grupo. Agora, com Arruda na Secretaria de Governo, já são três os ministérios ocupados por partidos que integram grupo político – 

João Roma (Republicanos-BA), no Cidadania, e Fábio Faria (PSD-RN), nas Comunicações.

A aliança com o Centrão contraria o discurso de campanha do presidente. Por diversas ocasiões, ele afirmou que não “lotearia” o governo em troca de apoio político e que não negociaria ministérios com partidos, relacionando a prática aos episódios de corrupção nas gestões petistas. Em um evento do PSL em julho de 2018, um dos principais auxiliares de Bolsonaro, o general Augusto Heleno, chegou a ironizar o grupo político parodiando uma canção popular. “Se gritar pega centrão, não fica um meu irmão”, cantarolou o militar, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Sete ministros tomam posse

Nesta manhã, 6, foram realizadas as posses de sete ministros. A cerimônia foi fechada, sem a presença da imprensa e sem transmissão pelos canais oficiais. Horas após o evento, o Palácio do Planalto divulgou uma série de vídeos com os discursos feitos na solenidade.

Três dos ministros empossados hoje, contudo, já haviam assinado os termos de posse em cerimônias reservadas no gabinete do presidente e estavam exercendo o cargo – Anderson Torres (Justiça), André Mendonça (AGU), na semana passada, e Marcelo Queiroga (Saúde), no dia 23. As posses “secretas” não foram abertas à imprensa e nem transmitidas pelos canais oficiais de comunicação do governo. Os atos tampouco constaram na agenda oficial do presidente nos respectivos dias.

Como mostrou o Estadão, em um ano de pandemia, Bolsonaro promoveu mais de 40 eventos com aglomerações no Palácio do Planalto. De posse de ministros até o lançamento de um selo postal comemorativo em homenagem aos 54 anos da Embratur, as solenidades reuniram centenas de convidados, contrariando o isolamento, uma das ações mais eficazes para conter a propagação do vírus, de acordo com organismos de saúde.

Militares

Na cerimônia desta terça, foram oficializadas também as mudanças de pastas comandadas por ministros militares após Bolsonaro demitir Fernando Azevedo e Silva da Defesa. O ministério agora está a cargo do general Walter Braga Netto, que para isso deixou a chefia da Casa Civil. Em seu lugar, assumiu Luiz Eduardo Ramos, até então responsável pela Segov. Carlos França, que substitui Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores, completa o grupo de novos ministros empossados nesta terça.

Ao dar posse a Ramos, seu amigo desde a época em que era cadete do Exército, Bolsonaro afirmou considerar a "confiança nas pessoas" para montar sua equipe no governo. Ramos foi um dos auxiliares que mais influenciou as trocas ministeriais anunciadas na semana passada.

“Não tem uma escola para ser presidente ou para ser ministro”, disse Bolsonaro, segundo discurso divulgado pelo Planalto horas após o evento. O presidente destacou ter aprendido em sua formação militar que “pior que uma decisão mal tomada, é uma indecisão” e que muitas vezes “decisões difíceis” são tomadas.

 “Agora, aprendi também depois da terceira idade, que o currículo é muito importante. Mas tem algo que é muito, muito mais importante que o currículo, é a confiança nas pessoas. E assim nós devemos montar a equipe que se propõe, se voluntaria a estar conosco, em especial nos momentos difíceis”, afirmou.

Em seu discurso, Bolsonaro também elogiou o general Braga Netto. O general assumiu a Defesa após divergências do presidente com o então ministro, Azevedo e Silva, que rejeitou tentativas de politizar as Forças Armadas. A troca na pasta foi seguida da demissão dos comandantes do Exército, Aeronáutica e Marinha.

“Nós aprendemos na academia a guerra convencional, muito pouco sobre a guerrilha. E a guerrilha a gente não sabe onde está o inimigo. Muitas vezes está ao nosso lado, mas nós vamos cada vez mais, buscando maneiras de enfrentar também a esse inimigo. Porque o que interessa para todos nós, é proporcionar dias melhores ao povo brasileiro”, disse Bolsonaro.

De acordo com o Ministério da Defesa, participaram da cerimônia de hoje no Planalto o chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, tenente-brigadeiro do ar Raul Botelho e os novos comandantes anunciados: almirante Almir Garnier, da Marinha, general Paulo Sérgio Oliveira, do Exército, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, da Aeronáutica, além de “demais autoridades civis e militares”.

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