Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Pela 4ª vez, Renan é favorito no Senado

Atual presidente confirma candidatura só na antevéspera e vai enfrentar Luiz Henrique, também do PMDB, apoiado pela oposição

RICARDO BRITO , BEATRIZ BULLA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2015 | 02h00

Dois dias após o 2º turno da eleição de 2014, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou: "Eu, sinceramente, não sou candidato (à reeleição). Já fui três vezes presidente do Senado Federal, nós estamos concluindo essa obra e essa decisão (sobre candidatura) é uma decisão que ficará para janeiro". Três meses depois, é considerado favorito para mais um mandato no comando da Casa, em votação marcada para a tarde de hoje.

Na véspera da decisão, ele se dedicou a uma visita ao presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG), Ouviu dele que o partido já se havia manifestado em favor do candidato rival, o também peemedebista Luiz Henrique (SC). Ao sair, Renan negou que tivesse ido pedir votos e rebateu a acusação do adversário de estar cometendo "atos de desespero".

Em outubro, Renan era um dos raros senadores do PMDB satisfeitos com o resultado das urnas: fez seu primogênito, Renan Filho, governador de Alagoas com apenas 34 anos. Hoje, sai candidato respaldado por mais 14 colegas de bancada.

O despiste na declaração de outubro já era parte da estratégia para adiar ao máximo o lançamento da candidatura no Senado. A ideia era repetir a fórmula de ser ungido pelos pares adotada por José Sarney (PMDB-AP) e evitar ser "vidraça" - em setembro, o Estado revelou que Renan foi citado pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa em sua delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato.

Depois de se ver forçado, sete anos atrás, a renunciar ao mesmo cargo que ocupa hoje, por ter a pensão de uma filha fora do casamento paga pelo lobista de uma empreiteira, o peemedebista encheu-se de cautela. Para ser reeleito, aposta no discurso de "austeridade" nos gastos e promete enxugar a máquina administrativa do Senado - de 2013 para cá, economizou R$ 530 milhões. Mas, por ter usado jatinhos da FAB para fazer um implante capilar e ir ao casamento da filha de um aliado político, Renan é alvo de ação de improbidade na Justiça Federal em Brasília.

Mercadorias. Aliados próximos dizem que o poder de Renan vem de sua capacidade de atender aos pedidos que recebe: desde um gabinete mais amplo ou uma rampa de acessibilidade, até outros mais difíceis, como comandar a aprovação do projeto que permitiu ao governo flexibilizar o cálculo do superávit primário. Como define um colega de bancada, é um "entregador de mercadorias".

Essa característica rende frutos ao senador. Do governo, obtém cargos e, se não é atendido, ameaça dificultar a vida do Planalto - no início de janeiro, ele disse a ministros que, se não pudesse fazer indicações para o segundo escalão, o PMDB no Senado deixaria a base para ser "independente". Dos senadores atendidos, exige fidelidade silenciosa. Com os desafetos, evita deixar as mágoas transparecerem e chega a pedir voto até de quem outrora era tido como inimigo político.

Mas a cinco dias das eleições, o peemedebista viu Luiz Henrique se lançar candidato, ao contrário do que havia feito em 2013, quando abriu mão em favor de Renan. Apoiado pela oposição, e por alguns senadores da base, o catarinense avisou-o de que disputaria a presidência e ainda lhe pediu o voto.

Ironia. O temor de Renan é que o voto secreto ajude Luiz Henrique. Seria uma ironia para quem foi favorecido pelo dispositivo não só nas três vezes em que foi eleito presidente da Casa, mas principalmente nas duas votações em que poderia ter sido cassado, em 2007, em decorrência da acusação de ter as despesas pessoais pagas por um lobista.

Para evitar surpresas - nos governos do PT, nunca um candidato do Planalto perdeu a disputa pela presidência do Senado -, Renan e aliados tentaram enquadrar Luiz Henrique, para que acatasse a decisão da bancada de eleger Renan.

Não adiantou: o catarinense confirmou sua candidatura, com apoio da oposição e até de senadores governistas. Sinal claro de que uma nova reeleição de Renan não é consenso na base aliada foi a falta de definição da bancada do PT.

O catarinense tem apoio de PSDB, DEM, PSB, PDT, PP, PSOL e PPS, além de três peemedebistas. O bloco foi confirmado após o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) abrir mão da disputa em favor de Luiz Henrique. Dois dias antes, Valadares tinha recebido telefonema de Renan que, sem ainda ter-se lançado oficialmente, falou do que pretendia fazer no comando do Senado até 2017. "Renan parece um candidato em off", disse Valadares.

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