Peemedebistas e petistas ameaçam retaliar DEM

Irritados, eles defendem investigação na primeira-secretaria, o cofre da Casa, que ficou sob o comando dos democratas durante dez anos

Eugênia Lopes, Christiane Samarco e Denise Madueño, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

03 de julho de 2009 | 00h00

Irritados com a decisão do DEM de pedir o afastamento do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o PMDB e o PT ameaçam retaliar os democratas, que comandaram em 10 dos últimos 18 anos a primeira-secretaria da Casa. Os governistas defendem uma ampla investigação nos atos do órgão. Responsável pela administração do Senado e pelas negociações de contratos, que vão desde a seleção de mão de obra terceirizada à negociação com empresas para prestação de serviços, a primeira-secretaria é conhecida como "o cofre" da Casa. É nesse órgão, ao qual o diretor-geral do Senado é subordinado, que transita grande parte do dinheiro orçamento da Casa. "O DEM sai com uma lista contra o Sarney pela porta da frente e com o cofre pela porta de trás", afirmou ontem Wellington Salgado (PMDB-MG). "Estão procurando um bode expiatório. Querem dividir a culpa e a responsabilidade", reagiu o líder do DEM, senador José Agripino Maia (RN). "Eles estão querendo fugir do desgaste com a decisão de manter o apoio a Sarney", completou o líder, ao lembrar que o diretor-geral é escolhido pelo presidente do Senado. O ex-diretor Agaciel Maia, hoje alvo de investigação pela edição de atos secretos, comandou a parte administrativa da Casa desde 1995.A atual Mesa Diretora já detectou irregularidades em 16 contratos para o fornecimento de mão de obra. Esses contratos foram analisados por uma comissão de servidores, que descobriu casos de nepotismo, superfaturamento, pagamentos por serviços nunca prestados e perpetuação de empresas por meio de contratos aditivos. Todos foram assinados por Agaciel Maia, no período em que o DEM esteve à frente da primeira-secretaria. Um dos casos detectados pela comissão técnica especial nomeada pelo primeiro-secretário, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), envolve a Aval Empresa de Serviços Especializados, responsável pela prestação de serviços de limpeza e conservação do Prodasen (Secretaria Especial de Informática) e da Interlegis. A comissão identificou que um contrato anunciado como "emergencial" tinha valor 97,91% acima do previsto pelo próprio Prodasen. A senha de que os peemedebistas e petistas - que ficaram praticamente sozinhos na defesa da permanência de Sarney - estão com sede de vingança em relação ao DEM foi dada ontem pelo líder do PT, senador Aloizio Mercadante (SP). Do púlpito do plenário, em um discurso que durou mais de três horas, ele fez questão de lembrar que o DEM é o responsável pela administração da Casa, pelo menos, desde 2003. Sob a presidência de peemedebistas, a primeira-secretaria ficou nas mãos do senador Romeu Tuma (SP), antes no antigo PFL e hoje no PTB, entre 2003 e 2005. Depois, foi ocupada, durante quatro anos, por Efraim Morais (DEM-PB) e, agora, está com o senador Heráclito Fortes (DEM-PI). "A responsabilidade administrativa dos democratas é muito grande. Vocês têm de assumir isso. Vocês têm de dialogar com a sociedade e com os outros pares aqui com franqueza e com humildade. Simplesmente sair da posição, deixar a aliança que vocês que criaram há alguns poucos meses e empurrar a crise simplesmente à presidência não é justo. Não é justo", bradou Mercadante da tribuna. O petista fez questão de lembrar que, pela proporcionalidade partidária, o DEM tem direito à segunda escolha de cargos na Mesa Diretora, mas nunca optou pela primeira-vice-presidência. "Por que nunca pediram a vice-presidência, que é o órgão político, que é o órgão que permitiria o debate político, público? Por que sempre quiseram a primeira-secretaria? Então, no período em que estou aqui, a responsabilidade administrativa dos democratas foi absolutamente decisiva", repetiu o petista.O DEM, que se aliou ao PMDB para eleger Sarney para o comando do Senado, decidiu há três dias defender o afastamento do peemedebista do cargo. Já o PT se aliou ao PSDB e lançou o senador Tião Viana (AC) para a vaga. Para pedir o afastamento de Sarney, os democratas argumentaram que é preciso isenção nas investigações sobre o José Adriano Cordeiro Sarney, neto do peemedebista, um dos donos da Sacris. O Estado revelou que a empresa intermediava empréstimos com desconto em folha de servidores do Senado.

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