Michel Jesus/Câmara dos Deputados
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Eliane Cantanhêde
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PEC dos precatórios rachou a esquerda e mostrou a dubiedade e fragmentação do centro para 2022

Para o presidente, o que interessa é que a PEC cria recursos para Bolsonaro financiar a troca do Bolsa Família pelo Auxílio Brasil, com R$ 400

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 03h00

A Proposta de Emenda Constitucional que cria um calote nos precatórios e implode o teto de gastos para comprar votos para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro serve como uma prévia para as eleições de 2022 e mostra como o Congresso só pensa nas suas emendas e os partidos estão infiltrados pelo bolsonarismo. PEC dos precatórios ou PEC da Reeleição?

A votação rachou a esquerda e mostrou a dubiedade e a fragmentação do centro, comprovando que o PT não arrasta os votos de velhos aliados, caso do PDT e do PSB, e que nem os partidos centro que têm candidatos contra Bolsonaro fecham as portas para ele.

Para o presidente, o Planalto e os tais “ministros políticos”, pouco importa o impacto na Bolsa, no câmbio, na segurança jurídica, na própria credibilidade do País. O que interessa é que a PEC cria recursos para Bolsonaro financiar a troca do Bolsa Família pelo Auxílio Brasil, com R$ 400.

A intenção é torrar as leis e a responsabilidade fiscal para garantir o “seu” programa de renda durante o ano eleitoral. A conta é salgada: para aprovar a PEC, foi preciso jorrar mais dinheiro ainda para as emendas parlamentares. Mas o bônus vale a pena: comprar votos do eleitorado mais fiel ao ex-presidente Lula, entre os mais pobres e menos escolarizados, especialmente no Nordeste.

Dito tudo isso, por que a PEC rachou a esquerda, a oposição e a “terceira via”? Foi aprovada em primeiro turno na Câmara com ajuda de gordas parcelas de PDT, PSB, PSDB, PSD, DEM e PSL. O que pesou foi a gula por mais emendas, o apoio velado a Bolsonaro, ou as duas coisas?

Ainda falta o segundo turno na Câmara e dois turnos no Senado. Como a diferença na primeira votação foi de apenas quatro votos, o destino é incerto e não sabido. O certo e sabido é que, enquanto lançam candidatos, ou “candidatos”, os partidos de centro não descartam Bolsonaro.

Exemplo: o PSD lança o senador Rodrigo Pacheco, mas negocia com Lula e dá 29 dos seus 35 votos da Câmara à PEC da Reeleição. Um pé em cada canoa. E o União Brasil, resultado da fusão do DEM com o PSL? Segundo levantamento do repórter Lauriberto Pompeu, 56 dos seus 88 deputados defendem o apoio ou admitem apoiar a reeleição de Bolsonaro.

Bem... se é possível o presidente negar a ciência na pandemia, no ambiente, na vida e na morte e ganhar uma medalha do mérito científico, se confunde John Kerry com o humorista Jim Carrey, se chama a Torre de Pisa de Torre da Pizza e seus apoiadores dentro e fora do Congresso acham natural, até bacana, tudo é possível no Brasil. 

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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