Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Pazuello distorce dados e blinda Bolsonaro na CPI da Covid

Ex-ministro nega ordem de presidente para desfazer compra de lote da Coronavac; general tem mal-estar e oitiva será retomada nesta quinta-feira

Vinícius Valfré e Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 21h32

BRASÍLIA – O depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello à CPI da Covid foi marcado pela tentativa de blindar o presidente Jair Bolsonaro. Ao longo de sete horas de sessão, nesta quarta-feira, 19, Pazuello distorceu fatos sobre a condução da crise sanitária pelo governo, disse inverdades ao negar a ordem de Bolsonaro para cancelar a compra da vacina Coronavac e foi desmentido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) ao afirmar que havia restrições da Corte à compra de imunizantes da Pfizer.

A sessão foi interrompida, à tarde, porque Pazuello sentiu um mal estar durante um intervalo e teve queda da pressão arterial. O general foi atendido pelo senador Otto Alencar (PSD-BA), que é médico. À saída do Senado, no entanto, Pazuello negou o problema, confirmado pelo Estadão com seus advogados. “Eu não passei mal. Não houve nada”, desconversou. O depoimento será retomado nesta quinta-feira, 20.

O ex-ministro deixou senadores irritados ao dizer que Bolsonaro não lhe mandou cancelar o contrato para a compra da Coronavac, vacina produzida pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. “Nunca o presidente me mandou desfazer qualquer contrato, qualquer acordo com o Butantan. Ele nunca falou um ‘ai’ sobre o Butantan”, afirmou.

No dia 21 de outubro, porém, Bolsonaro usou as redes sociais para anunciar o fim do acordo. “Ele (Pazuello) tem um protocolo de intenções, já mandei cancelar, se ele assinou. O presidente sou eu. Não abro mão da minha autoridade”, escreveu Bolsonaro, que, vinte e quatro horas depois, foi visitar o então ministro. “É simples assim: um manda, o outro obedece”, disse Pazuello, na ocasião, ao lado do chefe.

Agora, a versão do general é a de que a manifestação do presidente foi uma reação a provocações do governador de São Paulo, João Doria: “O que o presidente colocou, na rede social, ele não repetiu para mim”.

Pazuello foi submetido a outro constrangimento ao destacar que, entre os motivos para a não assinatura rápida de um memorando de entendimento com a Pfizer, estavam pareceres de órgãos de controle, como o TCU. O tribunal enviou relato aos senadores informando que não havia apresentado nada nesse sentido. O ex-ministro, então, disse que cometera um equívoco.

Os momentos mais tensos da CPI ocorreram quando o ex-ministro negou ter recomendado o “tratamento precoce” com cloroquina, medicamento sem eficiência comprovada contra a covid, e quando disse ter sido informado sobre a falta de oxigênio em Manaus apenas no dia 10 de janeiro.

Logo depois, chegou à CPI um documento no qual o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, admitia que Pazuello soube da crise no abastecimento de oxigênio no Amazonas em 7 de janeiro, em conversa por telefone com o secretário estadual de Saúde, Marcellus Campêlo. A nota assinada por Franco foi uma resposta ao requerimento de informações enviado pelo deputado José Ricardo (PT-AM).

“Não é possível isso. O senhor assistiu com seus olhos os nossos brasileiros amazonenses morrerem por falta de oxigênio”, reagiu Eduardo Braga (MDB-AM). “O depoente foi treinado e está mentindo muito. Vamos agora pedir que a CPI contrate uma agência de checagem on line de fatos”, afirmou o relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

Até o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), bateu boca com o senador Luís Carlos Heinze (Progressistas-RS) e o chamou de “mentiroso” por ele dizer que o governo Bolsonaro havia enviado dinheiro ao Amazonas para combate ao coronavírus. “Não me chame de mentiroso”, gritou Heinze. A sessão foi suspensa e, depois, Aziz pediu desculpas./COLABORARAM ADRIANA FERRAZ, AMANDA PUPO, FABIANA CAMBRICOLI E CAMILA TURTELLI

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