GABRIELA BILO/ESTADÃO
GABRIELA BILO/ESTADÃO

Valores morais dominam ‘Fla-Flu’ político no País

Para especialistas, estruturas políticas estimulam enfrentamento a partir de técnica de propaganda explorada por regimes totalitários

Bianca Gomes, Carla Bridi e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 14h00

Valores morais têm sido apontados entre os principais motivos do acirramento político na sociedade brasileira, por vezes às frente dos embates diretamente políticos ou partidários. Para o cientista político Kleber Carrilho, da Universidade Metodista, isso é um sinal de que falta educação sobre política no País. “Há uma tendência de não sabermos o que é política.”

O corretor de imóveis Paulo Henrique Nolasco, de 49 anos, diz defender valores da igreja católica e não se considera de direita. “Minha luta é pelos valores. Sou cristão católico. Luto pela moral que a igreja defende. Acho que nossos filhos têm de ter a oportunidade de serem criados pela família tradicional. A família brasileira é conservadora. Apoiaria Bolsonaro de novo por falta de opção, mas não sou mais ‘bolsominion’. Você vai amadurecendo, vê quem está cercando as pessoas. O Brasil precisa de um estadista, a gente sabe que o Bolsonaro não é.”

Para a estudante de nutrição Marcella Carvalho, de 22, o menos importante é a política em si. “As pessoas que votam no Bolsonaro partem de princípios completamente opostos aos meus, e isso me desanima de conversar. Não dá certo, não chega a conclusão nenhuma e me leva ao desgaste, porque temos morais e princípios muito diferentes.”

Também identificada com a esquerda, a produtora de vídeos Priscila Miranda, de 50 anos, admite que bloquear pessoas nas mídias sociais é algo controverso até mesmo para ela, que sempre preservou o diálogo e a pluralidade de ideias. Mas afirma ter perdido a disposição. “Eu fiquei intolerante, e isso eu falo abertamente. Não tenho mais paciência.” 

Dentro e fora das redes sociais, ela diz manter apenas amigos de esquerda e anarquistas. Quem manifestar qualquer discurso de extrema direita, imediatamente é deletado. “Não deleto só por partido. É por ideias. Quando falam de matar bandido, de que estupro é causado por roupa da vítima, que gays são anormais.” Ela conta que última pessoa que excluiu do Facebook foi um colega de curso que fez um comentário que ela considerou machista.

O estudante Erick Ferreira, que relatou ter sido hostilizado em sua universidade, conta que passou a ser alvo de provocações depois que Abraham Weintraub foi indicado por Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Educação. “Eu era próximo do professor, depois que ele virou ministro, passei a ouvir provocações. Procuro não comprar discussões, mas me tacharam. Nas eleições foi assim. Eu seguia os dois candidatos do 2.º turno nas redes. Fui acusado de machista e homofóbico por seguir Bolsonaro, e diziam para eu ir para Cuba ou Venezuela por seguir Fernando Haddad (PT).”

O protagonismo das pautas morais gera uma discussão em que argumentos são deixados em segundo plano, de acordo com o pesquisador da Universidade Metodista. “Não estamos estimulados a debater política e, quando isso acontece, o debate vira uma discussão entre tribos que trabalham não com argumentos, mas com ataques ao que é diferente. Vira um ambiente de Fla-Flu”, diz Carrilho.

Para o cientista político, o cenário favorece a simplificação de discursos. “Algumas estruturas políticas estimulam este tipo de enfrentamento a partir de uma técnica de propaganda que existe desde sempre e que foi explorada por regimes totalitários, que é a simplificação de discursos. Indicando um inimigo comum.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.