Paulo Renato só não foi chamado de bonito

Surpreendido durante um seminário por manifestantes que o xingavam de ?canalha?, ?fascista? e ?ladrão?, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, avisou que vai manter a suspensão do salário dos servidores federais em greve até que voltem ao trabalho.Falando sobre a possibilidade de o vestibular deste ano ser cancelado, o ministro declarou: ?Eles estão ameaçando desde o começo. Vou reter o pagamento até que voltem e se garanta o vestibular.?Paulo Renato estuda a contratação de uma empresa particular para organizar o concurso. ?Mandei estudar (esta possibilidade) caso alguma universidade se recuse a fazer o vestibular?, completou Paulo Renato, que reconhece a possibilidade de adiamento do concurso, por causa da greve, mas diz não aceitar o cancelamento.O presidente da Fundação Cesgranrio, Carlos Alberto Serpa, no entanto, considera inviável a terceirização do vestibular. Serpa explica que a Lei de Diretrizes e Bases garante às universidades autonomia para a organização dos concursos.A Cesgranrio, disse Serpa, não poderia, ?por motivos éticos?, assumir a realização do vestibular, ?porque é composta por universidades públicas e privadas?.Além disso, Serpa considerou que não haveria tempo para contratação de uma empresa sem vasta experiência nesse tipo de concurso.Paulo Renato participava da abertura de um seminário sobre o Plano Nacional de Educação, no Hotel Glória, zona sul do Rio, às 9h30, quando o salão nobre, no segundo andar, foi ocupado por um grupo de estudantes e alguns poucos professores de universidades e colégios federais.Houve muita confusão quando os manifestantes enfrentaram seguranças do hotel. Policiais militares foram chamados e ficaram na porta do hotel e do salão nobre, permitindo a entrada só de pessoas autorizadas.Às 10h30, chegaram à porta do hotel três agentes da Polícia Federal, armados de fuzis.Os servidores estão em greve desde o dia 22 de agosto e tiveram os salários de setembro suspensos. O ministro começou seu discurso com uma ?explicação sobre o movimento de paralisação?.Paulo Renato esclareceu que, ao suspender os salários, cumpriu decisão do Supremo Tribunal Federal, que considerou a greve ilegal. ?Estou cumprindo determinação judicial que não fui eu quem buscou?, disse Paulo Renato.Apesar de os manifestantes terem sido retirados do auditório, ainda se ouviam os gritos do lado de fora. Alguns, que ficaram no salão, chamaram Paulo Renato de ?mentiroso? durante o discurso.?Qualquer manifestação é democrática. Tenho respeito pelas entidades, não ofendo ninguém e espero não ser ofendido. Eu mereço esse respeito como pessoa, como cidadão, como ministro de Estado?, disse o ministro, no intervalo do seminário.Na mesma hora, porém, outro grupo de estudantes voltou ao salão. ?Você não pode ser ministro, está roubando o dinheiro da educação?, gritaram. Paulo Renato recolheu-se a uma sala e de lá deixou o hotel, por volta 11h.?Não é justo que 430 mil alunos estejam sem aula, 140 mil jovens têm que entrar na universidade?, disse o ministro.Os manifestantes souberam pela Internet, na noite de segunda-feira, da presença do ministro no Rio. ?A gente formou uma rede e se organizou por telefone?, contou Diego da Cruz, aluno do 1º ano do ensino médio do Colégio Pedro 2º.Bernardo Lima, aluno do 1º período do curso de história da UFRJ, protestou contra a ?truculência? da segurança do Hotel Glória. ?Fomos expulsos lá de dentro e, na confusão, alguns foram agredidos. O pessoal se mobilizou para ficar cara a cara com o ministro e reivindicar nossos direitos. Quando a gente entrou, ele ficou de cabeça baixa, acuado?, disse Bernardo.Com bandeiras do PSTU e cartazes que misturavam os rostos do ministro e do terrorista Osama bin Laden, os manifestantes gritavam palavras de ordem como: ?Se o governo não recuar, não vai ter vestibular?,?Paulo Renato é salafrário, devolva o meu salário?, ?Pra barrar a privatização, greve geral da educação?, ?Alô polícia, pega o ladrão, é o ministro da educação?.Nesta terça-feira, o dia no Rio foi marcado por manifestações de funcionários da educação. À tarde, cerca de 200 professores e alunos se reuniram em frente ao prédio da antiga sede do MEC, no centro.Eles vendiam roupas e livros a R$ 1,00, entre eles ?Capital e Escravidão no Brasil Meridional?, de Fernando Henrique Cardoso. ?Somos professores sem salário, vendendo nossas roupas e livros para sobreviver?, disse a pedagoga Vera Lúcia do Carmo.

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