Patrimônio desperdiçado

O presidente Luiz Inácio da Silva tem 80% de popularidade, maioria absoluta no Congresso e o apoio oficial de quase todo o espectro partidário do País, à exceção de três ou quatro legendas.Pois bem. Nada disso tem serventia na hora de negociar com o PMDB a preservação do equilíbrio ecológico no Parlamento, garantindo o cumprimento de um acerto pelo qual o maior e o segundo maior partido da coalizão governista partilham o poder no Legislativo.A oposição morre de medo de Lula. Não ousa contrariá-lo, não se atreve nem mesmo a enfrentá-lo de peito aberto em eleições. Não fez do presidente ou de seu governo personagens das campanhas municipais de 2008 e, para 2010, já avisou que não quer confusão com ele.O PT engole todos os sapos que lhe são servidos, independentemente do tamanho, o mundo político todo reverencia Lula, menos seu principal aliado, o PMDB, que faz dele o que quer. Obrigou o presidente a assumir a entrada na briga pelas presidências da Câmara e do Senado, pela primeira vez nos dois mandatos, e impôs o roteiro. Michel Temer, candidato a presidente da Câmara, avisou que não iria ao encontro marcado com o partido porque não lhe interessava misturar a eleição da Câmara com a do Senado. Foi recebido em particular.José Sarney, no papel de bucha de canhão, adia à conveniência do partido uma conversa com o presidente da República mediante a mais batida das desculpas (gripe forte) e Lula não tem jeito a não ser esperar e ainda mandar sua assessoria espalhar que ao Planalto sabe bem a hipótese de o PMDB acumular as duas presidências. Claro que não é verdade, mas é a versão cabível na situação. Qual situação? De absoluto constrangimento. Não para o partido, cuja tarefa é esta mesmo: ampliar espaços, influir na eleição de 2010 para se engajar no próximo governo. Uma maneira confortável de assegurar acesso à máquina pública sem se dar ao trabalho de disputar o poder na conquista da maioria do eleitorado nacional.Se resolvesse pagar para ver, o presidente Lula correria maiores riscos e teria mais trabalho. Mas talvez ganhasse a parada por um motivo simples: se o governo precisa do PMDB, o partido ainda precisa muito do governo.Há dois anos de mandato pela frente, cinco ministérios, presidências, diretorias de estatais importantes e inúmeros cargos federais ocupados. Todos devidos aos votos conquistados por Luiz Inácio da Silva nas urnas. Tentativa e erroA direção da Câmara recuou de dois atos erráticos, mas nem por isso se pode dizer que tenha acertado ou que seja louvada a decisão de anular a criação de R$ 48 milhões em novas gratificações e a contratação de plano de saúde (sem licitação) para assessores por indicação política.Certa a direção da Câmara estaria se não tivesse tomado nenhuma das duas decisões; se não tivesse aceitado a presença de um lobista da empresa de medicina privada na reunião privativa de deputados; se tivesse tomado as atitudes corretas.É bom lembrar que a tal reunião da semana passada que ensejou óbvias críticas, era para decidir um corte de despesas, uma medida de organização de gastos. Os deputados integrantes da Mesa encontraram-se no recesso para estabelecer novas normas de ressarcimento nos tratamentos médicos, impor limites, evitar abusos tais como o custeio de despesas em spas. Ao fim do encontro haviam inventado novos gastos e plantado a semente de um escândalo. É difícil acreditar que suas excelências não tivessem noção do que estavam fazendo, bem como é inaceitável que tenham voltado atrás pelas razões alegadas: contestações na Justiça por parte dos funcionários concursados.Se é como dizem, pior, demonstração cabal de que tomam decisões de forma leviana. Desinformados, cedem a qualquer lobby que lhes pareça interessante.Portanto, que não se perca o senso de realidade: a Mesa da Câmara recuou não por reconhecimento de um equívoco esporádico. Recuou porque já não tem como administrar impunemente a persistência no erro. Cada qualA tentativa de Anthony Garotinho de se filiar ao PSDB, depois da perda de espaço no PMDB do Rio para o governador Sérgio Cabral, obrigará o tucanato a uma definição.Precisará escolher se terá a imagem de Fernando Gabeira, cuja candidatura à prefeitura em 2008 foi patrocinada pelo PSDB de olho na eleição de 2010, ou se assumirá o perfil de Garotinho. Por mais larga que seja a extensão, não há muro que abrigue as duas hipóteses, por excludentes.Por dentroA ministra Dilma Rousseff ficou mais bonita mesmo com a nova programação visual. Falta agora uma remodelada no temperamento a fim de torná-lo mais benevolente à convivência com os mortais.

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