Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'Pato novo não mergulha fundo', diz Bebianno sobre novatos do PSL no Congresso

Futuro ministro enquadra novatos e Eduardo Bolsonaro passa bastão da liderança para acalmar os ânimos

Vera Rosa, Breno Pires, Mariana Haubert e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2018 | 20h11

BRASÍLIA - O futuro ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, tentou conter nesta segunda-feira, 10, o fogo amigo no PSL. Após a cerimônia de diplomação do presidente eleito, Jair Bolsonaro, no Tribunal Superior Eleitoral, Bebianno enquadrou os novos parlamentares do partido, que têm protagonizado desentendimentos em público. “Pato novo não mergulha fundo”, disse ele.

Na tentativa de conter as divergências, a cúpula do PSL decidiu que o deputado Delegado Waldir (GO) assumirá a liderança do partido na Câmara até 31 de janeiro de 2019 no lugar de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

Como o Broadcast/Estadão mostrou, em seu segundo mandato e até então integrante do chamado “baixo clero”, o deputado Delegado Waldir (PSL-GO), vice-líder do partido, foi alçado ao posto de articulador político do governo de transição na Câmara neste fim de ano. É ele quem tem levado ao plenário as preocupações do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, e do atual comandante da Fazenda, Eduardo Guardia, com projetos que podem onerar ainda mais as contas públicas. A avaliação das equipes econômicas é a de que se não fosse essa “contenção”, o próximo governo já estaria com um problema orçamentário maior em 2019.

Na semana passada, imagens de uma discussão entre Eduardo e a colega eleita Joice Hasselmann (SP), em um grupo de WhatsApp, escancararam as desavenças na sigla.

Em uma das mensagens, Joice criticou a articulação política do PSL na Câmara e discutiu com o deputado e senador eleito Major Olímpio (PSL-SP). Eduardo entrou então na conversa, bateu boca com Joice e chegou a dizer que ela tinha “fama de louca”. Na ocasião, contou ter recebido ordens do pai para conduzir negociações na Câmara nos bastidores, a fim de não irritar o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que concorre à reeleição e, sem o apoio do PSL, poderia acelerar a aprovação das chamadas pautas bombas.

“A gente estava lavando roupa suja”, admitiu Eduardo, no sábado, 8, ao ponderar que, na sua opinião, nada disso prejudica a governabilidade. “O que aconteceu foi uma batida de canela ali, natural, mas apareceram santos apaziguadores que resolveram o problema”, disse Joice ao Estado, nesta segunda-feira.

"O que foi comentado é que a liderança desse ano seria passada do Eduardo para o Waldir, que é o vice-líder e já está articulando. Eu conversei com o Waldir agora há pouco, foi uma conversa super amistosa. Ele disse, olha, 'preciso muito que a gente trabalhe juntos na construção desse bloco'. E vamos ter que trabalhar juntos", disse Joice Hasselmann, citando que ela e o delegado Waldir trocaram um "longo abraço".

Joice, no entanto, não se colocou fora da disputa da liderança para o próximo ano. "A bancada vai decidir. Essa ideia da liderança não partiu de mim. É uma ideia que partiu lá atrás, foi uma provocação. 'Olha, a gente acha que você que tem de ser'. Ademais, quem escolhe são os parlamentares, e líder a gente pode ter um hoje, outro amanhã. Nós tivemos o Franceschini, o Deputado e agora o delegado Waldir. Quem escolhe é os parlamentares", disse.

Bebianno comparou a maioria dos deputados calouros a “marinheiros de primeira viagem” e, sob o argumento de que Brasília é um “ambiente inóspito”, cheio de fofocas, pediu que a nova bancada, com 52 parlamentares, ajuste o relacionamento. “Estão todos em fase de adaptação. Como não é possível o divórcio, eu tenho certeza de que haverá uma acomodação e o PSL vai tomar um rumo positivo”, avaliou ele. “O partido tem de estar unido e todos precisam ter consciência. Se não fosse a onda Bolsonaro, a grande maioria não teria sido eleita. Essa é que é a verdade."

Ao falar sobre as sucessivas estocadas entre correligionários, o futuro ministro também mostrou contrariedade com críticas feitas pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente eleito, a Julian Lemos (PSL-PB), que assumirá a vaga de deputado federal em fevereiro de 2019. Em recente postagem nas redes sociais, Carlos disse que “Julian Lemos, a pessoa que tem se colocado como coordenador de Bolsonaro no Nordeste, não é nem nunca foi! Detalhes creio que todos sabem!”.

Para Bebianno, o comentário de Carlos -- com quem também já teve desavenças -- foi inconveniente. “Eu acho que não se atira em soldado, não se abate o aliado, não se sabe o dia de amanhã. Nosso trabalho sequer começou e acho extremamente negativo qualquer tipo de conflito interno. Não só negativo como, no nosso caso, desnecessário”, argumentou ele. O futuro ministro da Secretaria-Geral da Presidência disse, ainda, que a reunião de Bolsonaro com a bancada do PSL, nesta quarta-feira, em Brasília, servirá para aparar arestas e conter possíveis insatisfações.

Presidência. Sobre a presidência da Câmara dos Deputados, Luciano Bivar disse mais cedo nesta segunda que não deve haver vaidade no partido para ficar com o posto. "O PSL não tem a vaidade de pegar a presidência da Câmara. A gente precisa formar um bloco e, desse bloco, definir quem vai ser o candidato. Esse bloco deve dar ao governo a tranquilidade para que a gente aprove as reformas que a sociedade exige. Isso é a prioridade não só do governo como do partido do qual o presidente é integrante", afirmou Bivar, ao chegar para a cerimônia de diplomação do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Joice Hasselmann disse que a presidência da Câmara é algo ainda mais sensível do que a definição do líder da sigla. "Você não pode fazer uma nova eleição e trocar".

"O presidente da Câmara precisa ser aquele que vá tocar a pauta econômica. A gente tem de ser menos Poliana nesse pnoto. Não adianta ter alguém super alinhado com a gente, um passado superilibado que agrade todo mundo e que diga 'não vou pautar a reforma da Previdência'", disse Joice.

Ela disse concordar com a frase de Bivar que o presidente não precisa ser da sigla. "Tem que ter uma composição do PSL com alguns candidatos. Acho também que não precisa ser do PSL o candidato. Quando o Bivar se colocou como pré-candidato, nós o apoiaríamos. Mas, em ele abrindo mão, a gente pode fazer uma composição com outro candidato que de fato apoie nossa pauta econômica, que é o principal que a gente precise agora", disse Joice.

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