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Pastor ofereceu 50% de desconto na propina para liberar verbas do MEC, diz prefeito; ouça áudio

Cobrança foi feita por pastor Arilton Moura com aval de pastor Gilmar Santos, ambos com acesso ao ministro da Educação, Milton Ribeiro

Julia Affonso e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2022 | 09h47
Atualizado 25 de março de 2022 | 13h48

BRASÍLIA - Os pastores que operam o gabinete paralelo no Ministério da Educação (MEC)Gilmar Santos e Arilton Moura, atuavam de forma coordenada na cobrança de contrapartida para intermediar a liberação de recursos para escolas. Segundo relato de prefeitos ao Estadão, a abordagem era feita na hora do almoço. Logo após levar os prefeitos a reuniões no MEC, Arilton puxava uma conversa informal e chegava a oferecer desconto na propina que cobrava. 

O prefeito de Bonfinópolis (GO), Professor Kelton Pinheiro (Cidadania), contou ao Estadão que Arilton Moura ofereceu um abatimento de 50% no pedido de propina. O prefeito relatou que a proposta de Moura foi feita durante um almoço, no restaurante Tia Zélia, em Brasília, e teve o aval do pastor Gilmar Santos, líder da igreja Cristo para Todos. Ouça o áudio:

"(Arilton) falou: 'vou lhe fazer por R$ 15 mil porque você foi indicado pelo pastor Gilmar, que é meu amigo. Pros outros aqui, o que eu estou cobrando aqui é R$ 30 mil'", disse o prefeito.

O encontro no restaurante, segundo o prefeito de Bonfinópolis, ocorreu após reunião com o ministro da Educação, Milton Ribeiro, na sede da pasta. Kelton Pinheiro contou que ele e a mulher almoçaram na companhia de Gilmar Santos. O pastor Arilton Moura, narrou o prefeito, se aproximou deles depois de ter passado por outras mesas.

"Sentou do meu lado, em um dos lados da mesa, falou: 'olha prefeito, eu vou ser direto com você. Tem lá um recurso para liberar com ministro, mas eu preciso de R$15 mil hoje'", afirmou Arilton Moura, segundo o prefeito.

"O discurso dele que ainda me deixou mais chateado foi: 'eu preciso desse pagamento hoje, porque vocês políticos não têm palavra, vocês não cumprem com o que prometem. Depois eu coloco o recurso para você lá e você nem me paga'."

Ainda segundo Pinheiro, Arilton Moura disse que os R$15 mil seriam usados para custear despesas dele em Brasília. Em seguida, contou o prefeito, o pastor propôs um desconto de 50% na propina. Kelton Pinheiro disse que Gilmar Santos apoiou o pedido do pastor Arilton, falando que seu colega era "amigo do ministro" e conseguiria o recurso. "Faz mais barato para ele mesmo, pastor", disse Gilmar Santos, segundo o prefeito. "Estimulou (o pedido de dinheiro)."

Prefeito conta que Gilmar estimulou Arilton a pedir contrapartida para liberar recursos do MEC

Kelton Pinheiro relatou ao Estadão que Arilton Moura propôs ainda uma contribuição para a igreja. "Se você quiser contribuir com a minha igreja, que eu estou construindo, faz uma oferta para mim, uma oferta para a igreja. Você vai comprar mil bíblias, no valor de R$ 50, e você vai distribuir essas bíblias lá na sua cidade. Esse recurso eu quero usar para a construção da igreja", disse o pastor, segundo o prefeito. "Fazendo isso, você vai me ajudar também a conseguir um recurso para você no Ministério."

O prefeito disse ter ficado "indignado" e não aceitou a proposta. "O cara está sentado do lado do ministro, um à direita, o outro à esquerda. Saem da reunião e vêm com essa conversa", reclamou. "A vontade que eu tive ali foi de mandar ele para o quinto dos infernos."Arilton, Gilmar e também o ministro da Educação, Milton Ribeiro, passaram a ser alvo de investigação do Ministério Público Federal após o Estadão revelar esquema de corrupção na pasta. Três prefeitos já disseram ao Estadão ter recebido pedidos de dinheiro pelos pastores. O prefeito Gilberto Braga, do município de Luís Domingues (MA), relatou ao jornal que o pastor Arilton, na presença de Gilmar Santos, líder da igreja Cristo Para Todos, teria cobrado propina em ouro para facilitar acesso ao ministério.

Prefeito relata como foi o almoço no qual houve o pedido de propina; ouça:

O prefeito de Boa Esperança do Sul, em São Paulo, José Manoel de Souza (PP), também disse que foi levado a um restaurante de um hotel em Brasília depois de um evento no MEC em 2021. Lá, o pastor Arilton Moura perguntou se ele teria interesse em ter uma escola profissionalizante na cidade. “Eu disse que tinha outras demandas, como creche, terceirização de ônibus”. O prefeito conta que o pastor então complementou dizendo que, se ele quisesse, poderia ter a escola na hora. “Ele disse: Eu falo lá, já faz um ofício, mas você tem que fazer um depósito de R$ 40 mil para ajudar a igreja”. Souza afirma que se levantou e disse que não faria esse tipo de negócio. A cidade de Boa Esperança, segundo ele, não teve qualquer ajuda do MEC em seus projetos.

Souza contou ainda que foi ao restaurante com outros dois prefeitos paulistas que também estavam no evento do MEC, mas que só a ele foi oferecida a proposta de propina, numa mesa separada. Segundo ele, o evento que seria para pedir verbas por meio do PAR, o programa oficial do ministério de cooperação com municípios, havia sido uma "decepção" porque não havia expectativa de qualquer ajuda federal. Ao ir embora com a sensação de viagem perdida, recebeu a proposta do pastor Moura. Ouça o áudio:

'Conversas estranhas'

Em entrevista à CNN Brasil, Milton Ribeiro admitiu que teve conhecimento de "conversas estranhas" do pastor Arilton Moura, envolvendo recursos do Ministério da Educação, mas manteve reuniões com o religioso. O ministro disse que recebeu relatos e também uma denúncia anônima sobre pedidos de recursos feitos pelo pastor em troca de benefícios no MEC, em agosto de 2021. Ele disse que repassou o caso à Controladoria-Geral da União (CGU).

O ministro da CGU, Wagner Rosário, confirmou ao Estadão abertura de investigação em setembro do ano passado após solicitação de Ribeiro. Em nota, a CGU informou que sua apuração constatou “possíveis irregularidades cometidas por terceiros”, mas não de agentes públicos. O Estadão apurou que o investigado é o pastor Arilton. A Controladoria repassou o caso à Polícia Federal por haver indício de “oferta de vantagem indevida” para liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). A CGU abriu uma nova apuração a partir das informações divulgadas pela imprensa.

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