Pássaros "fazem greve" para preservar o Pantanal

Repórter de muitas guerras e aventuras, o jornalista José Hamilton Ribeiro prepara-se para contar mais uma história. Só que os protagonistas não serão humanos, mas sim pássaros que, revoltados com a poluição do Pantanal, ameaçam não se reproduzir mais e mudar de país se nada for feito. A livro Greve das Garças será uma fábula infanto-juvenil e deverá ser lançado até o final do ano.A idéia de fazer o livro veio de uma grande reportagem, realizada por Ribeiro para o programa Globo Rural, da TV Globo, que precisou de sete viagens e cinco anos para ser feita. Para documentar e entender o funcionamento de dois ninhais do Pantanal, o repórter fez longas caminhadas, passou horas observando as aves de uma torre montada pelos pesquisadores da Universidade do Mato Grosso e andou de carro, barco e até balão. O resultado é uma série de imagens incríveis, já mostradas na TV, e a consciência de que os pássaros estão ameaçados e, com eles, todo o Pantanal."Um levantamento da Universidade do Mato Grosso do Sul mostra que os ninhais no Estado estão diminuindo. Eram mais de 40 há vinte anos. Em 1999, somente 4 estavam ativos", conta Ribeiro. Nos dois ninhais que visitou - um às margens do Rio Vermelho, no Mato Grosso do Sul, e outro descendo o rio Cuiabá, logo após Barão de Melgaço, no Mato Grosso - acompanhou o acasalamento, a construção dos ninhos, o nascimento dos filhotes e a alimentação de cabeças secas, garças brancas, garças cinzas, garcinhas, socós bois, socós dorminhocos, garças morenas, colhereiros, biguás e biguatingas. Em somente um dos ninhais, os biólogos calcularam a existência de 5 mil ninhos, com dois filhotes cada, em média.Para alimentar todos esses pássaros, são necessários muitos peixes. No Mato Grosso, calcula-se que somente as aves adultas consumam 5 toneladas de peixe por dia, com deslocamentos de até 30 Km para conseguir alimento. Cada ave adulta do ninhal come, por dia, o equivalente a 15% de seu peso, enquanto os filhotes ingerem diariamente 50% de seu peso. "Os ninhais têm relação com o ciclo de cheias do Pantanal. Seu começo coincide com a chegada da seca, entre maio e junho, quando a vazante baixa concentra peixes e vida aquática em pequenas lagoas, e vai até novembro. Beneficiadas pela abundância de alimentos, as aves também jogam matéria orgânica na água, ou seja, onde há ninhal, há mais peixe. Resumindo, se os pássaros estão bem, o resto vai bem", diz José Hamilton.No entanto, além sobreviver aos seus predadores naturais - jacarés, sucuris, onças e urubus -, os pássaros que chegam de todas as partes da América para reproduzir no Pantanal, precisam competir com os coletores de iscas vivas (os pescadores), desmatamento, fogo e a presença ostensiva do ser humano. "É só se estabelecer um ninhal, que logo surge um hotel. Estressadas com os turistas, as aves ficam muito mais vulneráveis a todos os predadores".Fábula - Na história que Ribeiro está escrevendo, um pesquisador observa um comportamento diferente nas aves do ninhal e descobre que há uma mortandade de peixes no rio. Nesse momento, começa a fábula, onde os pássaros resolvem descobrir o que está matando os peixes e decidem não se acasalar, em protesto, no próximo ano. A greve reprodutiva é apenas o primeiro alerta: caso a causa do problema não seja solucionada, as aves ameaçam mudar de país e construir seu ninhal no Paraguai, Bolívia ou, em último caso, nos Estados Unidos."A fonte de poluição poderá ser fogo, veneno de alguma lavoura de algodão ou soja, depósito de vinhoto de usinas de álcool nas cabeceiras do rio, ou até sabotagem de alguma empresa que, para desmatar, produz um acidente químico", diz o escritor, que não antecipa o final.Para José Hamilton, "o Brasil deveria tomar como exemplo o que aconteceu com os Everglades, ecossistema norte-americano semelhante ao Pantanal Mato-grossense, só que dez vezes menor". Lá, há 100 anos foi construído um canal para acabar com as inundações e fazer loteamentos nas terras secas. "Desapareceu a fauna, os canais ficaram vazios e a água do mar infiltrou no lençol freático, tornando salobras as águas das fazendas e a consumida na região de Miami. Agora, estão estudando como eram os rios para restabelecer o que era. Vão dinamitar os diques e gastar bilhões de dólares para consertar o erro".Autor de um outro livro sobre a região (Pantanal, Amor Baguá), que já está na 15ª edição, Ribeiro acredita que a construção de uma hidrovia no rio Paraguai terá o mesmo efeito sobre o Pantanal. "Querem aprofundar o canal e tirar as curvas do rio. Com isso, as águas rasas, que levam quatro meses para ir de Cuiabá a Corumbá, vão chegar em oito dias, sem parar nos criatórios de peixes. E sem peixes, não há pássaros".

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