Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Passa a chuva, ficam as marcas

A exemplo de outros moradores de áreas atingidas por inundação, Luciene não se esquece dos dias em que o Jardim Romano foi tomado pela água

Pablo Pereira, de O Estado de S.Paulo

30 Junho 2012 | 16h00

Quando o céu se cobre de nuvens escuras na zona leste de São Paulo, Luciene Alves da Silva, de 52 anos, fica nervosa. Moradora da Rua Diogo Gonçalves Laço, no Jardim Romano, extremo leste da cidade, ela teve a casa de três cômodos inundada por água com esgoto durante mais de mês em 2010. Teve de sair de casa e perdeu tudo. Dois anos depois da enchente, ela não se cansa de agradecer à solidariedade da vizinhança, que lhe permitiu voltar para casa com armários, cadeiras, colchões e até um fogão.

"A água subiu dentro de casa, chegou até a altura do fogão, e estragou tudo", conta a dona de casa, que mora em três cômodos com um dos quatro filhos e o marido. "Até hoje, quando chove, eu fico tensa", recorda, mostrando a cozinha ainda em reforma por causa da enxurrada. Levaram dias e dias na limpeza trabalhosa para desinfetar o piso e as paredes contaminadas pelo esgoto. "Tem parede que até hoje não está boa", diz, mostrando o reboco que desgruda do canto úmido.

"A maioria das coisas aqui é doação. Famílias que viram a minha situação e ajudaram", lembra a dona de casa. Na enchente, que começou em novembro de 2009, o Tietê saiu do leito e as águas invadiram diversos bairros vizinhos. Em janeiro, nova chuva forte. Mas foi nos secos dias seguintes que a água subiu bastante dentro das casas, atingindo cerca de 10 mil moradores. Luciene teve de se refugiar em casas de parentes. "A gente acha que depois da chuva abriram uma barragem, e alagou tudo. Ficamos uns dois meses na casa de minha sogra, até a água baixar. Era uma podridão."

Apesar do sofrimento e da perda do que havia em casa, a família optou por não aderir ao programa da Prefeitura de ajuda às vítimas de enchentes por medo de abandonar o imóvel conquistado a duras penas. "Esse negócio de Prefeitura, a gente sempre fica meio assim, né?", diz. "A gente pega aí R$ 2 mil reais e depois eles acabam derrubando a minha casa." A desconfiança das autoridades naquela região não ocorre somente com Luciene. A vizinha dela, Fabiana do Nascimento Osório, de 30 anos, pensa igual. Dona de uma mercearia na mesma rua, Fabiana também perdeu tudo na enchente do Tietê. E não quis aceitar ajuda do governo municipal. "Não pegamos. A minha mãe falou: vamos sair daqui, com bolsa aluguel? E eles vão derrubar a minha casa?", conta Fabiana. "Tem muita gente daqui que até hoje está ao Deus dará, esperando casa", afirma Fabiana.

Depois que a água subiu e destruiu freezers, balcões e mercadorias e afastou a freguesia, Fabiana fechou o comércio. "Meus pais nem quiserem ir atrás do prejuízo porque achavam que eles iam enrolar a gente e não pagariam", conta ela. "E também não adiantava ficar aberto por que a rua ficou debaixo d'água muito tempo. Ninguém passava por aqui", declara.

Para evitar novas enchentes, a Prefeitura desapropriou as margens do rio e construiu, em 2011, um dique de proteção de 1.600 metros, além do Piscinão Pantanal, num investimento de de R$ 70 milhões . Para Fabiana, a obra não resolveu o drama dos alagamentos. "Ali no dique está ótimo. Mas quando chove alaga tudo aqui porque a água desce das outras ruas do asfalto e empoça na frente da minha casa. O esgoto entra pelo ralo do banheiro, pelo quintal. Fica tudo imundo."

Vizinho do dique, Daniel Alves Correia, de 36 anos, segurança, que há 15 anos vive na região, concorda com Fabiana. "Construíram o dique para resolver o problema, mas criaram outro", diz ele. Na porta da casa dele, a água costuma continua invadindo casas. O local virou um depósito de entulhos. "Quando chove, a casa de minha mãe, aqui ao lado, fica alagada. Na minha não entra água porque eu aterrei o terreno antes de construir", afirma. Cansado de ter de chegar em casa no meio d'água, a família de Daniel quer ir embora e colocou o imóvel à venda.

Sem solução. O drama dos moradores que vivem aos sobressaltos a cada chuvarada na periferia também se repete sem solução em outros pontos da cidade. Locais baixos viram lagos, carros viram barcos e moradores são expulsos de casa. O problema é histórico. Desde quando São Paulo era uma aldeia, as cheias sempre fizeram parte da memória paulistana, para o bem ou para o mal. Se no passado as inundações incentivaram a ocupação das férteis várzeas dos rios, as enchentes são hoje um dos maiores problemas estruturais da capital.

Há exatos 170 anos, o governo investe em obras para tentar remediar as inundações. Década após década, no entanto, a precariedade dos rios e as promessas dos governantes só foram se empilhando e aumentando os efeitos das cheias. Para se ter ideia, os 70 grandes rios, córregos e galerias que deságuam no Rio Tietê contêm, juntos, pelo menos 364,7 mil toneladas de areia e lixo acumulados nos leitos. Para piorar, a região metropolitana tem só 45 piscinões - ou um terço do previsto em 1998 pelo Plano de Macrodrenagem.

Um dos principais símbolos desse drama, assim como o Jardim Romano, é o quarteirão da Avenida Pompeia com as Ruas Venâncio Aires e Turiaçu. Lojistas, moradores e motoristas sofrem com as águas que transformam a baixada em lago a cada chuva forte. Habituado com os alagamentos, Guilherme Trevisan, de 22 anos, estudante, morador da quadra entre a Turiaçu e a Venâncio, lembra que já teve de entrar em casa com água na altura dos joelhos. "A primeira vez em que eu gravei imagens da enchente foi há três anos", recorda. E tem sido assim quando chove. Para mostrar o drama dos moradores, Guilherme e o irmão, Ricardo, publicitário, fizeram uma edição dos "melhores" momentos de gravações das enchentes e postaram um vídeo na internet com o título "Rio da Pompeia".

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