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Parto de antagonistas

Haddad e Lula omitem os dois últimos anos, quatro meses e 12 dias do governo Dilma

João Domingos, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2018 | 05h00

Em um encontro com artistas na quarta-feira, o candidato Fernando Haddad (PT) sugeriu que Jair Bolsonaro (PSL) seja encarado como “um parto necessário para o desenvolvimento”. Haddad disse que outras nações, hoje tão respeitadas, “tiveram seus momentos dramáticos”, o que para ele é algo semelhante ao que o Brasil está passando agora. 

O voto conservador não é uma novidade nem no Brasil nem em lugar nenhum do mundo. Por aqui faltava-lhe, no entanto, um guia. Guia que se construiu à sombra do governo de 14 anos, quatro meses e 12 dias de um movimento político que ficou conhecido como lulopetismo, o petismo com o culto à personalidade de Lula. 

Assim como militantes de vários partidos clandestinos de esquerda, parte da intelectualidade e da academia, do clero progressista e do movimento sindical apostou no final da década de 1970 e início da década de 1980 no surgimento de um líder forte, capaz de unir forças dispersas pela ditadura militar, e esse líder foi Lula, os conservadores fizeram movimento semelhante assim que o PT chegou ao poder, em 2003. A diferença é que Lula e os que o apoiaram fundaram um partido para se tornar força hegemônica na esquerda. Os conservadores preferiram se aglutinar em torno de um deputado que, por suas posições polêmicas, machistas, homofóbicas, xenófobas, contrárias à esquerda e em defesa da ditadura militar, passou a encarnar o anti-PT e o anti-Lula. Se Lula serviu de instrumento para a ascensão de uma força política à esquerda, Bolsonaro fez o mesmo papel, à direita. 

Ao longo do tempo, Lula engoliu todos os que o instrumentalizaram, afastou José Dirceu e Antonio Palocci de seu caminho, e impôs as candidaturas de Dilma Rousseff à Presidência da República e de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo e, agora, à Presidência. Bolsonaro ainda terá de provar se tem força para fazer o mesmo.

O PT soube tirar proveito político das grandes manifestações ocorridas durante a ditadura, como a marcha pelas Diretas-Já. Vai tentar fazer o mesmo com o protesto de mulheres programado para hoje, intitulado #EleNão. Bolsonaro, da mesma forma, tirou proveito dos protestos de milhões durante as jornadas de junho de 2013, inicialmente contrárias ao aumento do preço das passagens de ônibus, depois contra a realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Posteriormente, já em 2015, ele surfou na onda do desastre do governo de Dilma Rousseff, o que acabou por levar novamente milhões de pessoas às ruas, agora em apoio à Operação Lava Jato, contra a corrupção e pelo impeachment da presidente petista.

Durante tempos muitos tentaram entender o que foi que levou tanta gente às ruas em 2013. Hoje talvez seja possível entender um pouco o que aconteceu. O jeito petista de governar, com o forte aparelhamento da máquina pública que teve por objetivo pôr o Estado a serviço de um partido, fez com que surgisse uma força de reação na sociedade, uma força que não sabia direito o que queria. Só sabia que estava de saco cheio de alguma coisa, do discurso do nós contra eles adotado pelo PT e que não levava a lugar nenhum. Eleitores de centro, acostumados a votar no PSDB na longa polarização com o PT, pularam para o lado direito e foram engrossar as tropas de Bolsonaro. De forma que, quando o mundo político percebeu, o capitão reformado já estava léguas à frente.

Veja-se que na propaganda partidária tanto Haddad quanto Lula dizem que durante 12 anos o Brasil viveu seus melhores momentos. Eles omitem os últimos dois anos, quatro meses e 12 dias do governo de Dilma, a marca de um desastre que ajudou a consolidar Bolsonaro politicamente.

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