Partido nascido no Orkut prega o ultraliberalismo

Criado na internet, Libertários luta para entrar na arena política defendendo Estado mínimo - ou Estado nenhum

Daniel Jelin, do Estadao.com.br,

20 Julho 2009 | 13h39

O Partido Libertários - ou apenas Líber - surgiu no Orkut há três anos. Tem site, tem programa, está no Twitter e no Facebook, mas ainda não firmou pé no mundo real. Não estranha: em tempos de crise econômica e socorro estatal, o Líber prega o ultraliberalismo. Seu presidente, o estudante Juliano Torres, de 21 anos, se define como uma anarquista de mercado. Das agências reguladores ao Banco Central; do voto obrigatório ao Bolsa-Família; do Banco do Brasil à Esplanada dos Ministérios, ele também é contra quase tudo isso que está aí. O partido conta hoje com 500 membros. Para efeito de comparação, o Partido Causa Operária, na outra ponta do espectro ideológico, tem 3.189 filiados, o menor número entre as 27 legendas reconhecidas pelo TSE. Para engrossar a lista, o Líber precisa antes reunir cerca de 500 mil assinaturas em 9 Estados, entre outras formalidades. "É o maior problema", diz Torres. "Acaba desanimando as pessoas." Torres admite que o partido deve ficar de fora de 2010. "Nosso foco é 2012."

 

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Quem é Juliano Torres?

Sou estudante de jornalismo e publicidade. Vivo em Belo Horizonte. Faz algum tempo venho difundindo o movimento libertário e resolvi ajudar na criação do Líber.

O que é o movimento libertário?

Sete anos atrás, depois das privatizações, o movimento liberal parou. E com a queda desse movimento, faltou combater essa tomada de controle pelo Estado, com cada vez mais impostos e regulamentação. Alguns jovens conheceram o libertarianismo, que é uma filosofia política, e pela internet, Orkut, Facebook, blog, acabamos chegando no Líber.

Qual o tamanho do Líber?

Nós temos 500 membros.

Já tem o registro civil?

Em cerca de uma semana, devemos ter.

Qual o próximo passo?

Reunir 500 mil assinaturas

Quais os desafios de criar um novo partido?

O maior problema é reunir as 500 mil assinaturas. A gente só vai descobrir na hora o impacto que conseguimos sobre o eleitorado, se é efetivo. Esse é o maior problema. Acaba desanimando as pessoas. Alguns partidos vêm tentando há quase 17 anos. Mas como nosso partido é muito focado em núcleos nas capitais, talvez seja mais fácil.

Qual o papel da tecnologia na divulgação do partido?

O partido surgiu no Orkut. Nós tínhamos uma comunidade de debates sobre filosofia, e alguém teve a ideia de criar o partido.

Vocês já passaram por outros partidos?

Alguns poucos tentaram entrar no DEM, mas ficaram menos de um mês.

Por que não procuraram engrossar as fileiras de outro partido?

Não tem liberdade. Seus estatuto são muito fechados. Eles garantem o poder a certos grupos. O modelo dos partidos é muito centralizado no diretório nacional. Nós poderíamos ser expulsos.

Por quê?

Quando a gente defende alguma ideia contrária ao programa do partido, a comissão de ética pode expulsar. E eu creio que nos expulsariam. Os nossos meios são moderados, mas os fins são radicais.

O que vocês pensam da crise econômica?

A causa da crise econômica é a emissão exagerada de moeda pelos bancos centrais. E não adianta ficar imprimindo mais dinheiro. Vai gerar novamente uma bolha. Deveriam deixar o mercado se acertar. Estão aumentado o problema em vez de corrigi-lo.

Você vão disputar 2010?

Provavelmente não. Em outubro deste ano já teríamos de ter tudo pronto. Nosso foco é 2012.

Quais são as suas estratégias para as eleições?

Poucas coisas ser feitas no nível municipal ou estadual. O nosso foco é conseguir esses lugares pequenos para ter força e depois disputar as eleições maiores. É mostrar que nossas ideias têm uma base filosófica por trás. Como as nossas ideias são um pouco radicais - aos olhos de público -, creio que em uns 8 anos será possível disputar as eleições principais.

Como vocês se posicionam na disputa pela Presidência?

Nós preferimos não apoiar nem PT nem PSDB.

Como vocês se sustentam?

Cada membro paga uma anuidade de R$ 100 (vezes 500 membros resulta um total de R$ 50 mil ao ano)

O que você acha da fragmentação do sistema partidário brasileiro?

É bom que seja fragmentado. Quando você começa a concentra muito poder em poucas forças políticas, não tem oportunidade para novas ideias.

O Líber é utópico?

Temos três correntes no partido. Os liberais clássicos, os 'minarquistas', que defendem um Estado mínimo, e os anarquistas de mercado. Eu sou um anarquista de mercado. Isso é utópico. Mas qualquer mudança por mais liberdade eu apoio.

Qual a meta mais próxima do Líber?

Redução de impostos e mais direitos civis.

Quais?

Liberdade de casamento entre homossexuais, fim do voto obrigatório, fim do alistamento militar e liberação das drogas.

Essa filosofia já funcionou em alguma parte do mundo?

Existem outros partidos libertários no mundo. Na Nova Zelândia, o partido libertário fez parte do governo. Na Dinamarca e na Estônia, também. Nos países grandes, não.

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