André Dusek/AE - 26/11/2008
André Dusek/AE - 26/11/2008

Partido deve ser 'continuação da casa da gente', diz Jefferson

Presidente do PTB defende fidelidade e diz que troca-troca partidário que dobrou bancada em 2003 foi "erro grave". "Crescemos da cabeça para os pés. No primeiro buraco, quebramos a perna", afirma

Daniel Jelin, do Estadao.com.br,

20 de julho de 2009 | 14h24

O PTB foi o partido que mais lucrou com o troca-troca partidário que se seguiu à primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. O partido conseguiu nas urnas 26 cadeiras na Câmara e em setembro de 2003 tinha 55. À época, o então deputado federal Roberto Jefferson contava: "O Zé Dirceu nos prestigiou". Como se sabe, os dois viraram inimigos declarados e foram ambos cassados dois anos depois, na esteira do escândalo do mensalão. Jefferson hoje é presidente do PTB e reconhece que este movimento em 2003 foi um erro de estratégia partidária. "Crescemos a cabeça, ficamos com a canela de vidro. No primeiro buraco, quebramos a perna", diz. A experiência, segundo Jefferson, ensinou o partido a investir em sua base. Leia a seguir a entrevista concedida por e-mail.

 

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Uma tese de doutorado defendida na USP mostra que o, ao contrário do senso comum, as lideranças dos grandes partidos brasileiros têm bastante força e controle sobre as bases. O sr. concorda? Como o sr. definiria o vínculo entre cúpula e bases do PTB?

 

Nós no PTB temos uma forte relação com a base do partido. Cometemos um grave erro no governo do presidente Lula, quando, de uma bancada de 30 deputados federais, crescemos para 55. Pela aproximação com o poder, deputados que saíam do PSDB, do DEM, que gostariam de estar na base de apoio do presidente Lula, chegaram ao PTB e nós tivemos um crescimento da cabeça para os pés, o que foi muito ruim, porque na eleição subsequente de 55 deputados federais nós caímos para 21. Crescemos a cabeça, ficamos com a canela de vidro, no primeiro buraco que pisamos, quebramos a canela, quebramos a perna, foi muito ruim. A partir dessa experiência, o que fizemos no PTB nessas últimas eleições municipais de 2008? Construímos um sólido partido na base. Tivemos um crescimento de 40% na base, entre prefeitos e vereadores no Brasil. Crescemos e esperamos com o resultado um crescimento na bancada federal de 30 a 35 deputados federais na próxima eleição.

 

A mesma tese levanta o papel das comissões provisórias  como um dos mecanismos de controle à disposição das cúpulas partidárias. Por esta tese, a estrutura do PTB em nível local conta com diretórios em 10% das cidades e comissões provisórias em 90% delas. Por que tanta comissão provisória? Qual a dificuldade de institucionalizar o PTB em nível local?

 

As comissões provisórias são muito úteis ao partido quando a gente faz uma incorporação. O PTB teve essa base provisória porque incorporou o PAN em 2006. A lei estabelece que a partir dessa hora são dissolvidos os diretórios regionais e todos os diretórios municipais para a fusão. Em São Paulo temos um grande presidente que é um monstro para trabalhar, que é o deputado Campos Machado. Ele já organizou o PTB, e não só em 10%, como se questiona. Nós já chegamos na verdade à marca dos 30% ou 40% dos municípios com convenção realizada. O que nós vivemos foi a fase de transição na incorporação do PAN, porque estamos fazendo em todo o Brasil as eleições municipais, as convenções municipais, depois as convenções regionais.

 

Uma segunda tese de doutorado  advoga, do ponto de vista da disputa por governos e presidência, certa 'divisão do trabalho' entre os grandes partidos, pela qual PTB e PP e PR estariam deixando de lançar candidatos a governador e se contentando em apoiar candidaturas mais viáveis. O sr. concorda?

 

O PTB nas eleições de 2010 vai disputar eleições majoritárias para governo do Estado em Alagoas, no Pará, Amazonas, Amapá e Roraima. São cinco estados onde já temos bases alicerçadas, onde temos nomes para disputar e ganhar as eleições. Nos demais estados do Brasil, nós temos a expectativa do senador Sérgio Zambiasi no Rio Grande do Sul. Há um forte expectativa da base do PTB e mesmo do eleitorado gaúcho - ele é líder de pesquisa quando se fala no seu nome para a candidatura ao governo do Estado. Estamos construindo as alianças, vamos aguardar ainda o desenrolar do processo eleitoral. O PTB prefere avançar nas coligações majoritárias. Por exemplo, nessas eleições municipais, fizemos no ABC as cidades de Santo André e São Caetano, em que ganhamos a eleição. Em São Bernardo fizemos o vice-prefeito. Ganhamos a eleição em Manaus, ganhamos a eleição em Belém do Pará, fizemos o vice na cidade de Cuiabá, e fizemos o vice na cidade de Salvador. Essas são as posições de prefeituras mais importantes que o PTB conquistou nas últimas eleições. Vamos tentar coligações a nível estadual, indicando sempre a presença do vice. Mas em São Paulo, não há uma definição do PTB de apoiar qualquer candidatura majoritária em coligação. Temos pesquisas em mãos que apontam o deputado Campos Machado com 5% de preferência do eleitorado. Eu gostaria, mesmo que isso sacrifique o seu mandato de deputado estadual, de testá-lo numa eleição como candidato ao governo do Estado mais importante e poderoso do Brasil que é o Estado de São Paulo.

 

Do ponto de vista das eleições majoritárias, quais as ambições do PTB em 2010?

 

Nós devemos nos coligar em uma eleição presidencial. Nós temos que conquistar um acordo político do bem, uma aliança positiva, e que tem que enfocar o seguinte: qual a candidatura nacional que vai permitir, numa troca clara de apoios aos olhos da opinião pública nacional, a eleição de maior quantidade de deputados federais, senadores e deputados estaduais ao PTB? O PTB tem dois focos muito importantes: o aposentado e a mulher. O trabalhador também é nossa preocupação, mas é de todos, do PT, do PSDB, e as centrais sindicais são todas elas ligadas hoje a governo, são todas chapa-branca. É fundamental estabelecer realmente o papel da mulher na sociedade, e o direito do aposentado. E o PTB deseja construir em torno desta aliança uma bancada em torno de 30 a 35 deputados federais.

 

Todos os grandes partidos perderam filiados. A que você deve este fenômeno dentro do PTB?

 

Nós últimos anos o PTB tem crescido, viramos já a casa de um milhão e cem mil filiados no PTB. Estamos crescendo, temos uma campanha clara de crescimento, com humildade. Nós erramos naquele momento de 2002, 2003, no governo do presidente Lula, porque crescemos com muitos deputados federais na cabeça e um partido sem bases municipais. Invertemos isso, e passamos a fazer uma campanha nacional em todos os diretórios regionais e municipais do PTB, e a maneira da gente se comunicar é pela intranet do partido. Nós temos hoje uma rede sólida na intranet do PTB com municípios e Estados para fazer a filiação, para promover o crescimento do partido nos estados. Nós temos nos dedicado muito nas viagens que fazemos, eu e o secretário geral do partido, além do tesoureiro, do vice-presidente, dos líderes no Congresso Nacional. Sempre essa é a nossa preocupação em passar às pessoas: filie-se ao PTB. Venha conhecer nossas ideias. Somos um partido não dogmático, não ideológico, somos um partido de centro. Nós podemos nos compor ora mais à direita, ora mais à esquerda. Temos essa flexibilidade, porque não temos nenhuma doutrina radical nem à direita nem à esquerda, somos um partido democrático, e isso facilita muito o crescimento do PTB a nível nacional.

 

Que tipo de reforma política o sr. defende? Lista fechada? Financiamento público? Voto distrital?

 

Sou absolutamente contra a lista fechada. Isso é algo que nega o valor do indivíduo, é coisa para PRI (Partido Revolucionário Institucional) mexicano, partido comunista no passado na União Soviética, atualmente em Cuba. Isso não é bom. É bom que o partido tenha rosto, seja customizado, personalizado, humanizado a partir do rosto de seus representantes. Um partido não se faz apenas de números e de legendas, se faz de homens e de mulheres, de princípios. O PTB é a favor do voto à pessoa, mas o mandato é do partido, isso é uma luta nossa. O mandato é partidário. Fidelidade partidária é algo que respeitamos, e disso eu pessoalmente dou exemplo: fui seis vezes consecutivas deputado federal pelo PTB e nunca troquei de partido. Penso que tem que ser assim: partido tem que ser a continuação da casa da gente. Não sou a favor do financiamento público. Penso que é uma indecência. País que não tem remédio para dar a pobre, não tem leite, não tem hospital para todos, não tem segurança pública para todos, não tem uma boa escola pública para todos, não pode querer gastar dinheiro do contribuinte para fazer faixa de candidato, santinho de candidato, boca de ferro de candidato. Isso é um absurdo e uma violência brutal ao orçamento e ao povo do Brasil. Sobre voto distrital, a minha tese pessoal - não é ainda a tese do PTB - é que as eleições deveriam ser todas majoritárias. Nós tínhamos que acabar com as eleições proporcionais. Querem que o eleitor vote em uma lista, e a quantidade de legendas de um partido faria uma quantidade x de pessoas na ordem de inscrição. Sou contra isso, entendo que nós deveríamos fazer eleições majoritárias, todas elas. Um exemplo, no Rio de Janeiro são 46 vagas de federal, portanto, os 46 mais votados passariam. Isso daria muito mais transparência e muito mais representatividade ao voto. Como também advogo o fim do suplente de senador. Nós tínhamos que eleger três senadores, o primeiro suplente na ausência de um senador seria o quarto mais votado. Se faltassem mais dois senadores, o quinto e o sexto mais votados. Assim a sociedade teria a satisfação de ver que o seu voto estaria sendo respeitado. Com a eleição majoritária ia acabar esse negócio de construir lista, ficar negociando legendas. Terminaria essa luta terrível de ter que fazer barganha, negócio, promessa de emprego, troca de cargo para a pessoa entrar no partido, se filiar para poder disputar uma eleição e somar legenda para deputado estadual ou deputado federal, ou para vereador. Eleição majoritária, tanto para Câmara dos Deputados como para Senado, como para assembleias legislativas, para Câmara dos Vereadores, isso daria muito mais transparência e dignidade ao voto.

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