Reprodução/Youtube
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Parlamentares criticam declarações de Jefferson sobre suposta trama para derrubar Bolsonaro

Eles negam que lideranças partidárias estejam discutindo Bolsonaro, embora deputados e senadores estejam incomodados com a 'falta de postura' do presidente

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 22h21

Parlamentares criticaram, nesta segunda-feira, 20, declarações que o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) deu nos últimos dias a respeito de uma suposta trama para derrubar o presidente Jair Bolsonaro. No domingo, Jefferson participou de uma live, transmitida pelo próprio Bolsonaro, em que acusa o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) de estar por trás do estratagema, sem mostrar provas. Nesta segunda-feira, em entrevista ao Estado, o ex-parlamentar, condenado a sete anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, reiterou a narrativa. 

As declarações de Jefferson estão utilizadas por aliados de Bolsonaro para criticar o Congresso. Aliado de primeira hora de Bolsonaro em 2018, o senador Major Olímpio (SP), líder do PSL, classificou a fala do delator do mensalão como uma "teoria louca de conspiração". 

"O presidente se esqueceu da vida pregressa do Roberto Jefferson. Isso é um escárnio. Circula entre os senadores uma imagem do Queiroz, Flávio Bolsonaro e Roberto Jefferson com a inscrição: agora estamos com a equipe pronta", disse Olímpio ao Estado. Ainda segundo o líder do ex-partido do presidente, ninguém pretende pedir o impeachment de Bolsonaro, nem a oposição. "O capital político dele está se acabando sozinho. Você não vê o PT pedir impeachment. Querem que o Bolsonaro sangre até 2022 para dizerem que tinham razão." 

O senador contou que nesse domingo houve uma conversa virtual "acalorada" dos líderes da Casa. "Até ontem a gente sentia que Bolsonaro era café com leite e deixava para lá. Mas isso mudou de ontem para hoje, após ele ter ido na manifestação com palavras de ordem de fechamento  do Congresso e STF. Senti entre os líderes partidários que ninguém aguenta mais a falta de postura presidencial", afirmou Olímpio. 

Um dos organizadores da live com Roberto Jefferson e líder do grupo República de Curitiba, Paulo Generoso tentou explicar a escolha do ex-deputado, que foi condenado e preso por corrupção pelo esquema do Mensalão. "Não estamos passando um pano no passado dele. Não vejo Roberto Jefferson como uma referência política. ele representa a velha política que a gente sempre combateu. Mas a live não era sobre o currículo ou a vida dele, e sim sobre a denúncia desse golpe nos bastidores", disse o ativista. 

Jefferson, que é presidente do PTB, disse na live que Maia estaria se movimentando para votar uma PEC que permitira a reeleição dele e do presidente do Senado,  Davi Alcolumbre (DEM-AP). O mandato de Maia acaba em 31 de janeiro do ano que vem e, segundo a Constituição, ele não pode concorrer a um novo mandato. 

Para o líder do PSD no Senado, Otto Alencar (BA), o petebista "nunca foi parâmetro" na política. "O presidente deu espaço para quem está mergulhado na velha política. Jefferson é um exemplo da velha política e nunca foi parâmetro de ninguém. Ele não merece a minha consideração. Se merece a do presidente, ele esta se aconselhando muito mal", afirmou o senador. Para Alencar, Bolsonaro teria cometido crime de responsabilidade, mas não há clima para impeachment. 

Para o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), Bolsonaro está cada dia mais ligado ao "altíssimo fisiologismo". "Roberto Jefferson foi o homem do escândalo dos Correios e foi cassado. Essa é a nova política de Bolsonaro". Questionado sobre se a oposição cogita pedir o impeachment do presidente, Teixeira desconversou. "Esse é um tema que vamos amadurecer".

O deputado Ivan Valente (Psol), por sua vez, classificou Jefferson como o "campeão das notícias falsas. 

Pelo Twiiter, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi acusado pelo petebista de ser parte do "golpe" se manifestou. "Não é bom acirrar crises institucionais. Um pouco de contenção de lado a lado ajuda. Não creio em conspirações para tirar poder do Pr. Ele e alguns militares podem crer. Melhor não dar pretextos para o pior: lembrem-se de 68. As intenções somem no autoritarismo e vira pretexto", disse FHC.

Em entrevista ao Estado neste domingo, o tucano afirmou que não vê como aplicar o impeachment ao caso de Bolsonaro. "Pedir o impeachment agora com base em quê? O impeachment ocorre quando o governo perde maioria no Congresso e não passa mais nada. Quando perde a capacidade de governar. Segundo, quando há gente na rua e a situação econômica está ruim. Nesse momento, o governo não tem maioria sólida, nem nunca teve porque sempre desprezou a maioria no Congresso, mas continua governando. Não tem gente na rua. Está todo mundo em casa, com medo." 

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