Filipe Araújo/ Estadão
Filipe Araújo/ Estadão

Paraná, terra dos sonhos dos haitianos

Recrutados no Acre, onde viviam em precárias condições num alojamento, imigrantes que fugiram da miséria em seu país encontram trabalho em granja

Pablo Pereira, enviado especial a Idnianópolis - O Estado de S. Paulo,

20 Abril 2013 | 22h00

Eles deixaram o Haiti, país que ainda sofre os efeitos da devastação do terremoto de 2010, em busca de vida nova. Passaram pela República Dominicana, Equador e Peru e entraram no Brasil pela Amazônia. Os haitianos Jonas Philistin, 40 anos, que chegou pelo Acre e viveu mais de mês no precário abrigo de refugiados de Brasileia, e Wisly Septembre, 25, que veio por Tabatinga (AM), em outubro de 2012, se conheceram na semana passada em Indianópolis, no interior do Paraná. O encontro dos dois ocorreu na sala de treinamento da empresa Frangos Canção, na qual Wisly já trabalha há seis meses, e que recrutou um grupo de 46 haitianos em Brasileia para trabalhar em aviários na região de Maringá. A empresa tem 6 mil trabalhadores.

 

Na quarta-feira, o Estado acompanhou o processo de integração profissional dos haitianos no Paraná. Wisly se esforçava para traduzir para os compatriotas os detalhes do contrato brasileiro de trabalho.

 

Wisly emigrou pela República Dominicana, de onde viajou de avião para Quito. De lá, de ônibus e barco atravessou o Peru até Tabatinga. Após travessia de quatro dias pelo rio, chegou a Manaus, onde ficou 22 dias com auxílio da Pastoral do Imigrante da Igreja Católica. "De Manaus para Maringá vim de avião", lembra o haitiano, que faz parte do grupo pioneiro de dez imigrantes que chegou à empresa.

 

Simpático, se esforçando para falar português, Wisly ajuda na tradução de creole (idioma nativo do Haiti) e do francês, facilitando o processo de adaptação dos escolhidos no abrigo de Brasileia pelo gerente de Recursos Humanos da empresa, Osni Manteli.

 

Emergência. Diante do acúmulo de imigrantes na fronteira do Brasil com Bolívia e Peru, as condições de vida no abrigo no Acre pioraram – os mais de 1,3 mil haitianos passaram quase um mês lutando por comida, dormindo ao relento, sem local para higiene. Alertado por um decreto de emergência do governador Tião Viana (PT), no começo do mês, o governo federal formou uma equipe para atender à demanda por documentação, regularização e assistência de saúde e alimentação. O abrigo ainda tem 900 imigrantes. "Eles continuam chegando", diz o coordenador de Direitos Humanos do Estado, Damião Borges de Melo.

 

Com a ajuda da força-tarefa do governo federal, organizada pelo Ministério da Justiça, as autoridades do Acre conseguiram viabilizar a retirada em uma semana de pelo menos 400 haitianos, que partiram com documentos regulares, como ocorreu com o grupo levado ao Paraná.

 

 

Acampamento. Foi no acampamento do Acre que o executivo da Frangos Canção encontrou parte da mão de obra que procurava. Com exportação de frango para mais de 70 países, além de abastecer 23 Estados, e faturamento de R$ 980 milhões em 2012, a empresa acaba de comprar duas unidades de produção em Santa Catarina.

 

"Discutimos o assunto dos haitianos e chegamos à conclusão de que poderíamos encontrar uma boa solução para nós e para eles", disse Ciliomar Tortola, diretor de operações da GT Foods. Além da Frangos Canção, o grupo tem outras três marcas. A empresa tem seis plantas de abate com capacidade para processar 470 mil frangos/dia. "Vamos olhar para eles (imigrantes) com cuidado", disse Tortola, ao saber que há no grupo haitianos que falam francês, espanhol, inglês, além do creole, e têm formação superior.

 

É o caso do recém-chegado Chealove Felix, de 25 anos. Interessado em estudar comunicações no Brasil, Chealove é radialista e era um dos 43 imigrantes em Indianópolis. Falando francês, perguntava como deveria fazer para trazer a namorada.

 

Convívio. Circulando pela cidade após o expediente, os cidadãos haitianos que chegaram antes acompanham os novatos. Eles lotam a lan house da praça principal de Indianópolis para se comunicar via internet com parentes que vivem no Caribe.

Para o haitiano Carlo Alexis, de 31 anos, um dos "ranmase poul", que no creole quer dizer "pegando galinhas", o trabalho de encaixar frangos e carregar caminhões era a oportunidade esperada.

 

Evangélico, Alexis trabalha em uma das 11 equipes dirigidas pelo coordenador Paulo Cesar Leite, encarregado da operação nas granjas.

Com contratos de trabalho temporário, por causa da exigência de renovação das carteiras especiais de imigrantes, que vencem em prazo de seis meses, os haitianos vão ocupar três casas alugadas pela empresa na cidade por 90 dias. Depois desse prazo, terão de pagar seus aluguéis e outras despesas.

 

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