Dida Smapaio/Estadão
Dida Smapaio/Estadão

Para Wagner, crise atual lembra mensalão

Próximo de Dilma, titular da Defesa recorre a 2005, quando escândalo atingiu gestão Lula, para dizer que dá para reverter quadro

Entrevista com

Jaques Wagner

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

26 de março de 2015 | 05h00

Brasília - Um dos mais próximos ministros da presidente Dilma Rousseff, Jaques Wagner, da Defesa, compara a atual crise política à vivida por Luiz Inácio Lula da Silva em 2005. “Eu já vivi momentos, não iguais, mas semelhantes, seja pessoalmente, seja no governo do ex-presidente Lula. Não sei se números (das pesquisas de aprovação do governo) eram iguais. Mas eram situações ruins, difíceis, e ele (Lula) ganhou a eleição (em 2006). Ela (Dilma) está terminando o 3.º mês de 48 (meses). O fato é que muita água ainda vai passar debaixo desta ponte”, disse Wagner, em viagem à Amazônia anteontem.

Sempre que conseguia sinal no telefone, o ministro da Defesa tentava se comunicar com Brasília, para acompanhar os desdobramentos de mais um dia de tensão em negociações com o Congresso, no qual o governo sofreu nova derrota referente às dívidas dos Estados.

Wagner inaugurou um destacamento da Aeronáutica em Eirunepé, a 1.100 quilômetros de Manaus, acompanhou o trabalho de ação social das Forças Armadas na região e voou de helicóptero em Porto Velho. Entre os compromissos, concedeu esta entrevista ao Estado

Estado - Vivemos mesmo um “caos político” como diz a análise interna da Secretaria de Comunicação Social da Presidência? 

Eu já vivi momentos, não iguais, mas semelhantes, seja pessoalmente, seja no governo do ex-presidente Lula. Não sei se números (das pesquisas) eram iguais. Mas eram situações, ruins, difíceis e ele (Lula) ganhou a eleição (em 2006). Ela (Dilma) está terminando o 3.º mês de 48 (meses de 2.º mandato). A pesquisa sempre é a fotografia da conjuntura (62% dos brasileiros consideram o governo Dilma ruim ou péssimo segundo o Datafolha). Portanto, tem de ter paciência, foco, perseverança porque, quando bate o desespero, aí vem o caos, aí não se consegue organizar para superar o momento. O fato é que muita água ainda vai passar debaixo desta ponte. 

Estado - Mas só tem notícia ruim.

A comunicação vai mal, mas não gosto de apontar um único culpado. Estamos juntando três elementos que levaram a este número das pesquisas: denúncias de corrupção, aperto fiscal e tensão na base, que estão sendo superadas. Mas eu acho que, com paciência, com diálogo com a sociedade e com o Congresso Nacional, com aprovação do ajuste, vamos ultrapassar isso. Então, têm muito chão para andar. 

Estado - Com este quadro negativo o PT tem chances para 2018, mesmo com passeatas nas ruas? Volta com Lula de novo? 

Aí é futurologia. Lula continua sendo o candidato mais forte que o PT tem, isso está em qualquer pesquisa que quiser ver. Faltam 3 anos e 9 meses para as eleições. Está muito longe para as eleições e campanha política de médio e longo prazo não funciona assim. Uma coisa é uma análise racional. Outra coisa é a eleição, que é um momento emocional para a maioria da população. 

Estado - E nas eleições municipais, que estão mais perto, o senhor teme que o PT seja rejeitado? 

Depende do tempo de recuperação da gente. Se acontecer como eu estou prevendo que, no fim do ano, vamos recuperar economia, quem tiver que ser punido já terá sido punido, a gente já terá melhorado a relação na base aliada no Congresso... Então, é só você lembrar de 2005 quando diziam que Lula estava fora e ele ganhou no 2.º turno (foi reeleito no ano seguinte). Eu não sei enxergar tão longe. É o imponderável. 

Estado - O senhor vai para a Casa Civil? 

Esqueça.

Estado - Mas há pressões para o ministro Aloizio Mercadante sair. 

Sem chance dele sair. 

Estado - Querem que ele tenha menos poder e saia da articulação. 

Ela (Dilma) quer separar a gestão da articulação. Mas isso não significa que o chefe da Casa Civil fique de fora da coordenação política porque ele é um coordenador. Articulação é ação de todos. Todo ministro é político e está sentado lá representando um partido da base. Não tem articulador político que opere sozinho. Todo mundo tem de ajudar nisso. 

Estado - Como convencer o PT a apoiar o ajuste e trazê-lo para votar com o governo? 

Não acho que PT esteja resistindo. Ele tem dúvidas que estão sendo esclarecidas em reuniões sucessivas. O ajuste são medidas que visam contenção de gastos. O que mais sensibiliza o PT são medidas que não são ajuste fiscal, mas que corrigem desvios, erros de programas sociais, como seguro-desemprego. 

Estado - Mas dá para ceder? 

O local para debater isso é no Congresso. Não sei qual é a banda de folga. É evidente que o Executivo vai conversar. Não sei se dá para negociar. Quem define isso é a junta orçamentária, de que eu não participo. Mas, é claro que tudo que vai pro Congresso você tem de admitir que vai ter puxa daqui e estica dali. Mas a imagem que eu tenho é que a margem é muito estreita, pela necessidade de fazer o ajuste. Só que o protagonismo da discussão é do Parlamento. Não tem como fazer negociação antes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.