Para ter voto, candidato a vereador ignora território

Números do serviço Vereador Digital mostram que votos das áreas mais populosas ajudam a eleger concorrentes de regiões com menos eleitores

José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

21 de setembro de 2008 | 00h00

A zona leste tem o maior número de candidatos a vereador em São Paulo, mas o voto dos eleitores é mais disputado no centro da cidade. Isso decorre da densidade demográfica: enquanto na área central são apenas 883 mil moradores para 36 concorrentes - 1 para cada grupo de 10,6 mil habitantes -, a região leste da capital tem 185 candidatos, mas é a mais populosa, com 4 milhões de habitantes, o que corresponde a 21,6 mil moradores por candidato.Proporcionalmente, os votos do centro foram mais efetivos para compor o atual Legislativo: com população cinco vezes menor, elegeu 8 vereadores, enquanto a zona leste fez 13. Da zona sul, a segunda em população, com 3,4 milhões de habitantes, saíram 15 eleitos. Nessa região, são 160 candidatos a vereador - um para cada 21,2 mil pessoas. Os números do serviço eletrônico Vereador Digital, do portal estadao.com.br, mostram que os votos das áreas mais populosas ajudam a eleger candidatos de regiões com menos habitantes. Revelam também que grande número de candidatos não se importa com a geografia urbana: 262 omitiram a zona de origem alegando que atuam na cidade toda. Na zona oeste, 51 candidatos disputam eleitores entre 956 mil habitantes - 1 para cada 18,7 mil. Dos atuais vereadores, 8 procedem dali. A zona norte tem a melhor relação candidato/população. São apenas 40 para 2,2 milhões de habitantes - média de 55 mil moradores por candidato. Entre os atuais vereadores, 11 são dessa região.O candidato Byra Índio, do PV, optou por uma campanha regional. Ele tem como principal reduto as ruas de São Miguel Paulista, na zona leste, onde percorre residências e comércio distribuindo santinhos. O apelido remete às origens indígenas de Ubirajara Santos Malafaia, de 51 anos, descendente de índios guaranis. "Tenho compromisso com o meio ambiente e com a educação, mas é primeiro resolver os problemas da região", prega. PORTA A PORTAO funcionário público Geraldo Ribeiro Ângelo, de 39 anos, o Geraldo da Escola, do PPS, acredita que a zona sul é a mais carente da capital. Faltam sobretudo creches e projetos de saneamento básico. "Na favela do Bananal, o esgoto corre a céu aberto e as crianças brincam na água podre." Geraldo trabalha como secretário numa escola e mora em outra, onde exerce a função de zelador. Na Escola do Piraporinha, em Santo Amaro, ele vive com a mulher Veroneide e quatro filhos. A mulher e os dois maiores o ajudam a pedir votos e distribuir santinhos. "Estamos indo de casa em casa." Sem recursos, ele desistiu de estender a campanha a outros bairros, mas acredita que o eleitorado de Santo Amaro é suficiente para elegê-lo. "Nasci e vivo aqui há 39 anos." O advogado Eduardo Tuma, de 27 anos, que também nasceu em Santo Amaro, escolheu a zona oeste como área de atuação política. Ele se tornou evangélico e a igreja que freqüenta fica no bairro de Perdizes. Ali também montou o comitê eleitoral. Eduardo é sobrinho do senador Romeu Tuma e concorre à Câmara com o primo Robson, filho do senador, também candidato. "Não há conflito, pois o eleitorado dele é diferente e está mais nas regiões norte e sul." Ele espera fazer parte da renovação de mais de 40% que a Câmara deve experimentar na próxima legislatura. Eduardo quer melhorar a segurança na região com câmeras, maior efetivo para a Guarda Civil Metropolitana e iluminação. "Em Perdizes tem rua onde já ocorreram vários assaltos porque é muito escura."ALTERNATIVOSO centro tem a cara da Rainha Naja, do PV, nome eleitoral da candidata Simone Silva Martins, de 27 anos. Ela veio de Birigüi, noroeste do Estado, mas se considera paulistana. Chama a atenção pelo corpo tatuado, os cabelos coloridos e o vestuário ousado, com roupas de couro e adornos de metal. Naja é dona da Valhala, danceteria do centro que reúne um público alternativo: góticos, fetichistas, GLS e podólatras.Ela faz campanha acompanhada de dois homens - seus "escravos" pessoais. "Fazemos performances na Paulista e distribuímos nossa propaganda ao pessoal que aglomera para assistir." Simone se identifica com o centro. "É um território de todos, inclusive dessa galera jovem e inteligente que nos acompanha."Adenísio Miguel da Silva, o Grilo da Lotação, do PSC, sempre morou na zona norte. Ele critica os políticos que só aparecem na região na época de eleição. "Depois que se elegem, somem do bairro." Grilo quer mais investimentos nas crianças da região. "Se não cuidar, serão bandidos amanhã."Alguns candidatos incluíram o bairro de origem no nome registrado no TRE. O piauiense Ronaldo do Pantanal (PSOL) pretende "batalhar" para melhorar o transporte público em sua comunidade, o Jardim Pantanal. Já o alagoano Ivan do Campo Limpo (PMN) considera que seu bairro foi "esquecido" pelos políticos. O gerente Fernando Pereira de Souza, o Fernando Zona Sul, do PV, e o Antonio do Glicério, do PTB, prometem melhorias para seus redutos eleitorais. A aposentada Josefina Tolardo, a Jô de Taipas, do PSDC, conta que, além do bairro Parada de Taipas, trabalhará pelos vizinhos Pirituba e Jaraguá.

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