Para Tarso, eleger Cunha é 'começo do fim da aliança'

Para Tarso, eleger Cunha é 'começo do fim da aliança'

Governador gaúcho também sugere retomada do Conselhão como saída para melhorar a economia e lançar novas políticas

Entrevista com

Tarso Genro

LETÍCIA SORG, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2014 | 02h02

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), afirmou que a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à presidência da Câmara poderia significar o começo do fim da aliança entre PT e PMDB. Para ele, apoiar alguém que declarou oposição ao governo leva o partido do vice-presidente Michel Temer a uma "situação de alta contradição política".

Em entrevista ao Broadcast Político, da Agência Estado, Tarso classificou a gestão Dilma Rousseff como de "resistência à crise internacional". O governador - que perdeu a reeleição e anunciou que não disputará novas eleições - defende o resgate do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social para construir um "pacto de transição para o desbloqueio do crescimento econômico e para as políticas sociais do governo" no segundo mandato.

O sr. critica a aliança PT-PMDB e diz que ela pode transformar o PT em partido comum. Por quê?

Isso está determinado por uma mudança na hegemonia do PMDB cada vez mais problemática. A possibilidade de eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara - e aqui não estou fazendo nenhum juízo moral sobre ele - leva o PMDB a uma situação de alta contradição política. O PMDB proporcionaria a presidência da Câmara, sendo da base do governo, a um opositor que apoiou Aécio Neves. Ou o PMDB reestrutura sua hegemonia interna para se tornar um aliado de governo ou essa aliança vai acabar. Não é que eu queira, é uma constatação.

E se Cunha de fato se tornar o novo presidente da Câmara?

Pode ser o começo do fim da aliança do PT com o PMDB, que vai se projetar, na minha opinião, por todo o governo da presidenta Dilma.

Nesse contexto, como a presidente conseguirá levar adiante as reformas que prometeu?

Aí entra o talento de cada um. Se tivesse que dar uma opinião para a presidenta, seria: restaurar a força política e de concertação política a partir do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão. Ali estão agentes econômicos, políticos, de toda a sociedade, e pode sair dali um pacto de transição para o desbloqueio do crescimento econômico e para as políticas sociais do governo.

Isso não provocaria ainda mais atrito com o Congresso?

O Conselhão teve resistência forte do Congresso e da mídia, mas depois se conformou como um órgão de negociação política com a sociedade civil que não alterou em um milímetro as funções do Congresso. É ilusão ou manipulação política achar que ele pode igualar o Congresso.

Por que o Conselhão não teve espaço no governo Dilma?

Se formos olhar os enunciados para o desenvolvimento que o Conselhão produziu e as políticas - como ProUni e Minha Casa Minha Vida - que o governo Lula aplicou para conseguir os níveis altos de crescimento, veremos que essas políticas foram alicerçadas naquele diálogo, que ocorreu num momento de ofensividade da economia brasileira. O governo Dilma foi mais defensivo em função da crise mundial, e o Conselhão foi gradativamente perdendo iniciativa. Se isso foi perdido de maneira consciente ou não, não sei.

Dilma fez um governo diferente do de Lula principalmente na condução da economia. O que se pode esperar do segundo mandato?

Os governos do presidente Lula proporcionaram muitas conquistas sociais. Isso ocorreu num momento em que se combinaram um conjunto de reformas e conjuntura econômica favorável no mundo. Já o governo da presidenta Dilma foi de resistência, para que essas conquistas não fossem demolidas. Ela avançou com programas como o Mais Médicos, mas seu governo foi sobretudo de não permitir que a crise atual fizesse voltar atrás as políticas do presidente Lula. Esse ciclo passa por uma nova etapa. E a presidenta apresentará uma equipe econômica e uma equipe dirigente do governo para permitir que as conquistas prossigam.

Qual o ideal para a equipe?

Acho que a presidente deve nomear um ministro da Fazenda - (seja) da indústria, do banco ou da academia - comprometido com as mudanças que ela quer fazer. O nome da pessoa e sua história vão dar uma sinalização grande. Se me perguntassem quem é o tipo ideal, diria que é uma pessoa que sinalize aos agentes econômicos que vão ser retirados os obstáculos para o crescimento, que vai fazer uma gestão financeira buscando estabilidade na moeda e capacidade de financiar o Estado e que tenha sensibilidade social para manter os programas sociais.

A presidente vai conseguir praticar o diálogo que prometeu?

Ela tem que fazer e está disposta a fazer. Tem intenção de estruturar um diálogo com seu partido, com as forças políticas, inclusive da oposição. Não precisa haver acordo sobre como resolver a agenda, mas precisa haver uma agenda para o País.

O sr. disse que vai se dedicar à reconstrução do PT. O que precisa ser reconstruído?

Quando assumi a presidência do partido (em 2005, durante o escândalo do mensalão), cumpri em parte a missão: o processamento das eleições internas para o PT não ser diluído naquele momento. Ali lancei uma ideia de refundação do partido, que permanece em total atualidade. Primeiro (é preciso) uma identidade mais clara de todas as seções do PT com seu perfil programático. O PT tem feito alianças em várias regiões que não condizem com seu perfil. Em segundo, retomar o perfil de referência em ética pública. Terceiro, recompor nosso programa de governo voltado para o futuro, e não (só) para fundamentar o que fizemos no passado.

Há informações de que Lula está disposto a disputar a eleição de 2018. Há renovação no PT?

O Lula é uma grande reserva que temos para 2018. Não se sabe se ele vai querer concorrer e se é conveniente para o partido e para o projeto. As lideranças do PT que vão se projetar para o futuro vão depender do movimento de reestruturação do partido.


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