Para sobreviver, Sarney deve sacrificar diretor

Gazineo terá de sair para garantir a permanência do presidente no cargo; parlamentares afirmam que ele não admite deixar o comando do Senado

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2009 | 00h00

Envolvido no escândalo dos atos secretos, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), pretende "sacrificar" o atual diretor-geral da Casa, Alexandre Gazineo, para garantir sua sobrevivência no cargo. Sarney está abatido com a revelação do Estado da existência dos boletins reservados, que beneficiaram seus familiares. Parlamentares que o visitaram afirmam que Sarney não dá brecha para que lhe sugiram abandonar o cargo. Ele ainda tem esperança de recompor o Senado com a opinião pública, brecando qualquer movimento pela renúncia. A receita é simples: tirar Gazineo da diretoria-geral, passando o posto a um gestor fora do quadro do Senado, que tenha um perfil "acima de qualquer suspeita". Mas isso não é tudo. Em desabafo a mais de um interlocutor ontem, o presidente do Senado avaliou que "agora não tem mais jeito" e afirmou que não vai "segurar" mais nada. Ao contrário, disse que sua intenção é "abrir tudo", respeitando seu estilo, que não é de "espalhafatos". Embora a crise tenha origem em desmandos administrativos e denúncias de corrupção, o grupo político de Sarney e do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), avalia que setores do PT e da oposição querem enfraquecê-lo para abrir uma nova disputa pela cadeira de presidente do Congresso. O raciocínio nesse caso é de que se esboça outra disputa de poder na base aliada, a exemplo do que ocorreu na crise de 2007, quando Renan acabou renunciando à presidência do Senado. Não que o objetivo seja cassar Sarney, embora o PSOL já tenha falado em representar contra ele no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, tal como fizera com Renan. A briga de poder que a cúpula peemedebista do Senado identifica hoje passa pela sucessão presidencial de 2010.Os dirigentes peemedebistas estão convencidos de que setores expressivos do PT no Congresso e no governo querem o PMDB "mais fraco" em 2010 por várias razões. A principal motivação eleitoral seria o "excesso" de candidatos do PMDB nos Estados, uma vez que a força nacional do partido reside exatamente no poder político de seus caciques regionais. Os peemedebistas estão certos de que não é à toa que Sarney se tornou alvo preferencial desses setores do PT. Lembram que, dos 19 senadores da bancada do PMDB, apenas três têm mais quatro anos de mandato a partir de 2011: Jarbas Vasconcelos (PE), Pedro Simon (RS) e Sarney, é claro. Embora o presidente do Senado esteja engajado na pré-candidatura presidencial da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, os peemedebistas não têm dúvida de que, ao PT, não interessa vê-lo forte. Isto poderia alimentar o projeto inicial do PMDB do Senado. Quando Sarney aceitou disputar a cadeira de presidente, seu grupo entendeu que havia garantido lugar na mesa de negociação da sucessão do presidente Lula e da formação do novo governo, independentemente de quem for o vitorioso da corrida presidencial. O Sarney forte com que contavam teria cacife para disputar a reeleição e continuar dando as cartas do jogo político no Senado.

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