Para salvar Palocci, Dilma cede e suspende kit anti-homofobia

Bancada evangélica ameaçou apoiar ida do ministro ao Congresso caso cartilha continuasse sendo produzida

Tânia Monteiro, de O EStado de S.Paulo,

25 de maio de 2011 | 17h52

BRASÍLIA - Assustado com a ameaça feita na noite desta terça-feira, 24, no plenário, de convocação do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, caso o governo não retire de circulação o chamado "kit anti-homofobia", o governo decidiu receber as bancadas religiosas no Planalto e anunciar a suspensão de divulgação de qualquer material sobre o tema. Essas decisões foram anunciadas nesta quarta-feira, 25, pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, logo depois do encerramento de uma conversa com parlamentares das bancadas evangélica, católica e de defesa da família.

 

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Sob forte pressão da oposição, Palocci vem sendo cobrado a dar explicações sobre a rápida evolução do seu patrimônio, que se multiplicou por 20 nos quatro anos em que o ministro exerceu mandato de deputado federal.

 

Gilberto Carvalho anunciou que a presidente Dilma Rousseff determinou a suspensão da produção de vídeos e cartilhas contra a homofobia e mandou suspender a divulgação do que já havia sido distribuído. Os ministros da Educação, Fernando Haddad e da Saúde, Alexandre Padilha, serão chamados ao Planalto para conversar sobre o caso.

 

"A presidente assistiu ao vídeo, não gostou e vai conversar com os ministros. Ela achou que o vídeo era impróprio para o seu objetivo. Não se trata de uma posição só de aparências. A presidente tem as suas convicções e acha que o material é inadequado. Ela foi muito clara nesse sentido e determinou que esse material não circule oficialmente por parte do governo", declarou Gilberto Carvalho, confirmando a informação dos deputados evangélicos. Abaixo, um dos vídeos que fariam parte do material:

 

Os parlamentares evangélicos já haviam transmitido a indignação da presidente Dilma sobre o material que trata de homofobia. Os deputados Anthony Garotinho (PR-RJ), Ronaldo Fonseca (PR-DF), e o líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG) consideraram que o material se tratava de "uma apologia ao homossexualismo". Disseram que "trazia cenas e desenhos de sexo anal e oral", com "uma didática muito agressiva" e se mostraram "preocupados com a maneira virulenta com que esse material está sendo apresentado".

 

Apesar da pressa do Planalto em receber os parlamentares e atender ao pedido de suspensão das publicações e dos vídeos, Gilberto Carvalho disse que "não houve recuo" do governo em relação à política de discussão sobre homofobia e que "não tem toma lá, dá cá".

 

Para o ministro, os parlamentares das bancadas religiosas anunciaram que não iriam mais promover a convocação do ministro Palocci porque acharam que essa era a atitude mais conveniente, e não por terem sido atendidos pelo governo. "Nós oferecemos o diálogo. Eles que tomassem a atitude que achassem consequente. Foram eles que decidiram suspender aquela história de que estavam falando (de convocar o Palocci ao Congresso)", reagiu. Os parlamentares, na saída do Planalto, no entanto, avisaram que não iriam mais ajudar a convocar Palocci, pelo atendimento do pleito sobre o corte na divulgação do material sobre homofobia. Abaixo, o segundo vídeo, "Torpedo", que também faria parte do kit

 

Debate amplo. Gilberto Carvalho informou, ainda, que a presidente convocou os ministros da Educação, Fernando Haddad, e da Saúde, Alexandre Padilha, para conversar sobre a produção de material que trate de questões de costumes e informá-los que qualquer coisa sobre este tipo de tema terá de passar por um debate mais amplo e pelo crivo presidencial. "É importante que esse material, para ser produtivo, para atingir o seu objetivo, seja fruto de uma ampla consulta na sociedade, para não gerar esse tipo de polêmica que acaba prejudicando a causa para o qual foi destinado. Qualquer outro material, daqui para frente, editado pelo governo sobre a questão de costumes passará pelo crivo amplo da sociedade e das bancadas interessadas", avisou.

 

O ministro da Secretaria Geral insistiu que "não se trata de retrocesso" na discussão do tema, mas que o governo entende que o assunto tem de ser tratado de outra forma e mais amplamente discutido. "O governo está aprofundando o diálogo. Se você produz um material que sofre uma tamanha contestação, o objetivo para o qual está destinado é prejudicado. É preferível produzir um material com mais diálogo para atingir o objetivo. Não se trata de recuo, mas de um processo mais aprofundado de diálogo", avaliou.

 

Segundo Carvalho, "o governo mantém sua posição clara contra qualquer tipo de homofobia, e as bancadas também se declararam contra a homofobia. Mas o governo achou prudente não editar esse material que estava sendo preparado no MEC. A presidente decidiu a suspensão desse material e do vídeo produzido por uma ONG. O governo decidiu também suspender a distribuição desse material", declarou Gilberto, falando em nome do governo, depois de receber os parlamentares no Planalto.

 

Ameaças. Os próprios parlamentares reconheceram que o material não está sendo distribuído nas escolas, embora o ministro Fernando Haddad, na semana passada, tenha admitido que isso seria feito. Mas reiteraram que querem a suspensão de todo e qualquer material sobre o tema e ameaçaram criar problemas no Congresso em votações, além da convocação de Palocci e de apoiar mobilização pela instalação de uma CPI contra o Ministério da Educação. O vídeo e o material impresso, entretanto, vazaram para a internet, provocando a ira dos parlamentares da bancada religiosa.Abaixo, o último vídeo da série, "Encontrando Bianca":

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