Para PT, caso Siemens é ‘trensalão’; FHC reage: ‘PSDB não é farinha do mesmo saco’

Partidos que devem travar o principal embate na eleição presidencial de 2014 nacionalizam crise envolvendo governo tucano de São Paulo

O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2013 | 23h14

PT e PSDB nacionalizaram, nesta sexta-feira, 9, a guerra política originada com a denúncia de pagamento de propinas em processos de licitação dos trens do Metrô nos governos tucanos em São Paulo. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, batizou o caso de "trensalão", numa referência ao esquema do mensalão, que atingiu o PT em 2005. Na outra ponta, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o PSDB "não é farinha do mesmo saco", numa referência ao PT.

Falcão reclamou do tratamento dado pela imprensa ao caso em São Paulo. "Se houvesse alguns de nossos partidos envolvidos, seria a maior corrupção da história. Mas dizem que é cartel e que a vítima é o Estado", discursou o dirigente petista no Rio, em seminário que analisava os protestos de junho.

"As manifestações não vão cessar. Haverá uma em São Paulo, no próximo dia 14, contra o propinoduto ou o trensalão", disse. À noite, em encontro do PT em Bauru, Falcão retomou o caso e foi mais direto: "Chega de tucanos em São Paulo.

Se não passar uma CPI na Assembleia, vamos passar no Congresso". Presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique saiu em defesa dos quadros tucanos, apesar de o presidente da legenda, Aécio Neves (MG), não ter assinado a única nota oficial do diretório nacional do partido sobre o caso.

Segundo FHC, "há muita agitação, mas pouca coisa concreta a respeito" da denúncia. "Não houve acusação de que o governo de São Paulo tivesse sido favorecido ou que algum político do PSDB tivesse se beneficiado", disse o tucano, que também estava no Rio nesta sexta.

"Quando começam a misturar as águas, não é bom. Isso pode dar a impressão de que é parecido com o que outros fizeram. (...) A população ficaria pensando que é tudo farinha do mesmo saco. E não é", disse FHC.

"Do que eu saiba, os governadores de São Paulo Mário Covas (morto em 2001), Geraldo Alckmin e José Serra são pessoas que não entram neste campo de corrupção", enfatizou.

O caso de acerto em licitações foi delatado pela multinacional Siemens ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A empresa fez com o Cade um "acordo de leniência", ou seja, admite negociatas e, em troca, fornece provas e informações sobre o ilícito.

Fernando Henrique Cardoso admitiu que licitações podem gerar corrupção e afirmou que o ex-governador José Serra foi transparente ao dar respostas sobre denúncias.

Reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo na quinta-feira revelou a existência de e-mail de executivo da Siemens relatando conversa com o então governador José Serra na qual ele teria sugerido que a empresa fizesse acordo com a primeira colocada, a espanhola CAF, para a licitação não ter de ser cancelada. Serra nega.

"A concorrência para compra de 40 trens de São Paulo, realizada em 2008, foi uma verdadeira ação anticartel (...) Ganhou a CAF, uma empresa espanhola que ofereceu o menor preço. O Estado economizou cerca de R$ 200 milhões (...) A Siemens ofereceu preços bem mais altos. Por isso perdeu, ficando em segundo lugar. Diga-se que não recebeu nenhum tipo de compensação. Não foi subcontratada nem ganhou contratos novos. Ou seja, os fatos sugeridos nesse(s) e-mail(s) de executivo(s)da Siemens não aconteceram", disse Serra, em nota.

Resistência. O comando nacional do PT trabalha para criar em Brasília, na Câmara, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as denúncias que atingem o PSDB. A estratégia encontra resistência nos partidos da base. A situação não interessa às demais legendas, como o PSB, PDT, PP, PTB, que fazem alianças com tucanos e petistas nos Estados.

Como na Câmara há 17 investigações à espera de instalação, o PT quer emplacar uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista, envolvendo deputados e senadores, que teria criação facilitada. "Os fatos estão vindo muito rapidamente. Isso requer uma investigação forte", justificou Paulo Teixeira (PT-SP), encarregado pelo partido de recolher as assinaturas.

"Por que vamos nos meter nisso?", questiona o 2.º vice-presidente do Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). "O que move isso é uma questão política. Nós não vamos entrar nessa briga", avisou o líder do PDT na Câmara, André Figueiredo (CE).

"Nossa tendência é de não assinar a CPI nesse momento de crise e de véspera de eleição. Há uma investigação grande do Ministério Público e da Polícia Federal. Não estamos a fim de participar dessa guerra entre PT e PSDB", emendou o líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (SP). "Ninguém vai assinar isso agora com a nuvem de dúvidas sobre a eleição do ano que vem", resumiu um parlamentar.

LUCIANA NUNES LEAL, WILSON TOSTA, EDUARDO BRESCIANI, DÉBORA ÁLVARES E DAIENE CARDOSO

Mais conteúdo sobre:
PTPSDBLulaFHC

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.