Para PSDB, é hora de ajustar agenda e afinar discurso

Surpresos com pesquisa, líderes reclamam de falta de organização na campanha e centralização das decisões a cargo do candidato

Ana Paula Scinocca e Christiane Samarco / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h01

A vantagem de Dilma Rousseff (PT) em relação a José Serra acendeu o sinal amarelo no PSDB. Um dia após a pesquisa CNI/Ibope ter registrado vantagem de 5 pontos porcentuais para a petista – 40% a 35% –, líderes do PSDB reclamaram de desorganização na campanha e de centralização das decisões nas mãos de Serra.

 

Nos bastidores, defenderam ajustes na agenda e a necessidade de harmonizar o discurso. Na avaliação de um parlamentar tucano, é preciso parar de ter medo do candidato e aderir de fato à campanha. Segundo ele, a campanha não é de Serra, mas do PSDB e o que está em jogo é o futuro do País e da oposição.

 

Em outra linha de interpretação, um dos estrategistas da campanha, deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), admitiu que o resultado da pesquisa foi "uma surpresa" e que todo levantamento em que o candidato aparece atrás gera estresse na campanha.

 

Jutahy advertiu, no entanto, que não se muda o rumo por conta de uma pesquisa, sobretudo quando os levantamentos internos dizem que o candidato vai bem. "O maior erro que uma campanha pode cometer é não ter clareza de suas convicções nem capacidade para manter os rumos. Vamos lidar com números voláteis a campanha inteira", justificou.

 

Para o deputado baiano, a luta do PSDB não mudou e é uma só: "Precisamos tirar Dilma da toca." Disse estar seguro da estratégia de comparar Serra a Dilma e forçar a adversária a se expor e ir para o debate. "Campanha é comparação e, para isso, haverá debates e entrevistas sem teleprompter. A campanha só começa em 5 de julho." Segundo ele, o que pode explicar o crescimento de Dilma é que ela está se tornando conhecida no Brasil inteiro como candidata do presidente.

 

Presidente do PSDB e coordenador da campanha de Serra, o senador Sérgio Guerra (PE) afirmou que a pesquisa não vai alterar os rumos da campanha, mas reconheceu que uma avaliação ampla deveria ser feita pelo partido. Ele viajou para São Paulo a fim de se reunir com Serra no início da noite. Entre os assuntos a ser discutidos, além da pesquisa, estavam a finalização de palanques regionais e a escolha do vice na chapa. "Não vamos mudar o rumo até porque esse levantamento difere bastante das nossas pesquisas, mas é preciso que sejam feitas avaliações", avisou.

 

Ajuste. Políticos do partido chegaram a advertir sobre a necessidade do que chamaram de "ajuste fino" no marketing e na comunicação da campanha. Outro importante líder do PSDB disse que os tucanos não vão se conformar com a tese de que a pesquisa foi ruim para Serra porque o volume de propaganda do governo foi maior se comparado ao programa partidário.

 

No núcleo de comunicação da campanha, a pesquisa não foi motivo de alarme. As medições internas, segundo integrantes do grupo, dão vantagem a Serra. Eventual mudança só será colocada em curso com a orientação do comando da campanha – argumento mencionado também pelo presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). "Precisamos encerrar de vez a montagem dos palanques regionais e a definição do vice para começar a campanha para valer. Nosso desafio é estruturar campanha em todos os municípios", afirmou.

 

"Nosso discurso não é fácil", prosseguiu. "Temos de convencer o eleitor de que os ganhos dos últimos anos estarão garantidos e projetar um futuro melhor. O Serra tem de falar em melhora futura, sem gerar insegurança no presente. O desafio da Dilma é não mexer no que está dando certo e o nosso é projetar futuro melhor a partir do que existe hoje. As estratégias estão todas no limite", avaliou.

 

Indicadores. Diante da indicação da pesquisa CNI/Ibope de que houve uma queda nas intenções de voto do tucano no Sudeste, Jutahy diz que "é obvio" que o PSDB tem de estar atento. Segundo ele, é preciso procurar saber o que está de fato ocorrendo na região em que o partido é mais forte e tem o governo dos dois principais Estados: São Paulo e Minas. "Se houve uma queda no nosso ponto forte, onde há um público mais identificado com nossa administração e somos bem avaliados, temos de analisar o porquê. Não podemos descuidar dessa região, que é fundamental para a nossa vitória."

 

Com a experiência de quem participou de quatro campanhas presidenciais, o ex-presidente do DEM Jorge Bornhausen advertiu que é preciso encerrar o período de montagem dos palanques estaduais e definição do vice para avaliar melhor as candidaturas.

 

"Isso tudo toma tempo e deixa o candidato paralisado", avaliou. Ele reconheceu que a briga em seu próprio Estado – Santa Catarina – não permite uma visita de Serra. "A partir da próxima quinta-feira, tudo estará resolvido e o candidato poderá vir aqui quando e quantas vezes quiser", disse. Apesar do resultado ruim da pesquisa, Bornhausen disse que não jogou a toalha. "Não perdi a esperança nem a vontade de ganhar. Tenho confiança nesta vitória."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.