Para polícia, máfia até montava editais de licitações que fraudava

Grupo suspeito de superfaturar produtos médicos distribuía ?favores e gentilezas? para políticos, indica apuração

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

01 de novembro de 2008 | 00h00

Mais do que burlar pregões eletrônicos, a máfia dos parasitas conseguia determinar as regras das licitações, segundo a Polícia Civil de São Paulo. O que era uma suspeita dos investigadores até o início da semana passada se transformou em forte indício depois que minutas foram apreendidas num dos 23 endereços vasculhados pela força-tarefa composta por policiais, auditores da Secretaria de Estado da Fazenda e promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).Deflagrada na quinta-feira, após 11 meses de investigação, a Operação Parasitas levou para a prisão cinco empresários suspeitos de faturar R$ 100 milhões com fraudes nos últimos dois anos. A suposta organização criminosa seria dividida em duas células - uma tinha influência sobre contratos firmados com hospitais públicos da capital e da Grande São Paulo e outra atuava sobre prefeituras do interior de São Paulo, Rio, Minas Gerais e Goiás.Em Resende (RJ), os investigadores apontam fraude em uma licitação vencida pela empresa Velox Produtos de Saúde e Gestão Hospitalar Ltda. Como a contratação da Home Care Medical era criticada por parte da oposição à administração do prefeito Silvio de Carvalho (PMDB), a solução encontrada foi fazer da Velox a vencedora. Detalhe: a Velox é administrada, segundo a polícia, pelos mesmos sócios da Home Care - Marcos Agostinho Paioli Cardoso e Renato Pereira Júnior, presos na semana passada."A Home Care não tem nenhum contrato com a Prefeitura de Resende, nunca enviou um tostão para o exterior. Trata-se de empresa idônea, que tem seus contratos aprovados pelo Tribunal de Contas", disse o advogado César Guimarães. Ele voltou a dizer que a defesa ainda não teve acesso aos autos. A Prefeitura de Resende se limitou a admitir que mantém contratos com algumas das empresas investigadas.A estratégia de usar múltiplas empresas permitia que os controladores apresentassem, nas licitações, preços acima dos praticados no mercado, uma vez que concorriam entre elas próprias. Durante a apuração, a polícia notou "disponibilidade da Home Care em oferecer favores e gentilezas para os representantes do Executivo e do Legislativo". As escutas mostram candidatos a prefeito "solicitando apoio financeiro para suas campanhas" e até mesmo o uso de helicóptero para deslocamentos de políticos, tanto a trabalho quanto para lazer.Pelo menos um prefeito foi flagrado encontrando-se com um dos empresários presos. Trata-se de Herculano Castilho Passos Júnior (PV), que governava Itu e foi reeleito com 85% dos votos. O encontro foi filmado pela polícia, que não sabia de quem se tratava. Só mais tarde foi percebido que o interlocutor de Pereira Júnior não era um simples funcionário público. As escutas telefônicas captaram um diálogo no qual os dois comentavam que não iriam para o almoço em seus carros.Em nota, o prefeito de Itu negou ter tido ao encontro. Informou ainda que o contrato com a Home Care Medical foi celebrado há três anos, após um processo de concorrência pública e com o aval do Tribunal de Contas do Estado (TCE).Em 2006, a Polícia Federal tinha apreendido, durante a Operação Vampiro, ambulâncias que eram destinadas pela máfia das sanguessugas à Prefeitura de Itu. Em 2007 a administração municipal conseguiu, na Justiça, ser declarada "fiel depositária" das ambulâncias apreendidas - oito veículos Fiat Dobló e um Peugeot.Outro caso que demonstra a promiscuidade com o Poder Público, segundo os investigadores, ocorreu em Peruíbe (SP), cuja prefeitura é administrada pelo PMDB. Em um telefonema feito às 22h15 de 5 de agosto deste ano, o empresário Dirceu Gonçalves Ferreira Junior, um dos sócios das empresas Vida?s Med e Biodinâmica conversa com um homem identificado como Edinho. Este diz que vai entregar no dia seguinte ao empresário a lista de medicamentos. "Tem tudo que precisa lá de Peruíbe, para você montar o edital", avisa. "Ótimo", comemora o empresário. Edinho conta que está na Assembléia Legislativa. Dirceu diz que vai "fornecer a receita do médico". Os dois conversam sobre a tomada de preços e chegam a dizer: "Nós fazemos do nosso jeito."A reportagem não conseguiu contato com a Prefeitura de Peruíbe na noite de sexta-feira nem na manhã de ontem.

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