Para PF, 'organização criminosa de Dantas faz uso da corrupção'

Novo relatório lista crimes contra ordem tributária, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e outros

Fausto Macedo e Roberto Almeida, de O Estado de S.Paulo,

20 de novembro de 2008 | 23h21

O novo relatório da Polícia Federal contra o banqueiro do Opportunity afirma: "Durante o transcorrer das investigações, pudemos perceber que a organização criminosa liderada por Daniel Dantas faz o uso da corrupção e da intimidação para alcançar seus objetivos." São 247 páginas que reúnem indícios, esmiúçam as atividades de Dantas e a ele atribuem longa série de violações e delitos contra a União, assim descritos: "Fica claro que a organização criminosa liderada por Daniel Dantas praticou crimes contra a ordem tributária, crimes contra o sistema financeiro, crime de lavagem de capitais, formação de quadrilha, dentre outros." Veja também:As fases da Operação Satiagraha: o que mudou e o que fica igual Gravação mostra clima tenso entre delegados da SatiagrahaPolícia Federal pretende pedir prisão de Dantas novamenteJuiz De Sanctis recusa promoção e fica no caso DantasDaniel Dantas, pivô da maior disputa societária do BrasilAs prisões de Daniel Dantas Os alvos da Operação Satiagraha   Este é o relatório parcial do inquérito 235/08, que foi presidido até julho pelo delegado Protógenes Queiroz, mentor da Satiagraha e dela afastado desde que descobriu-se que ele recrutou clandestinamente arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para a missão. Agora sob responsabilidade do delegado Ricardo Andrade Saadi, chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros da PF em São Paulo, a investigação mergulha fundo nos negócios do Grupo Opportunity e nas atividades de Dantas, que o delegado qualifica de "banqueiro baiano". O documento mostra as ligações de Dantas com o empresário Marcos Valério, operador do mensalão. A Brasil Telecom, sob gestão do Opportunity, realizou contratos em valores superiores a R$ 50 milhões com a DNA e SMP&B, de Valério. Diante do silêncio reiterado das testemunhas que convocou para depor no inquérito, nesses 4 meses em que assumiu Satiagraha, Saadi recorreu ao submundo do dólar paralelo para arrancar informações que comprometem seu alvo, Daniel Dantas. Formado também em Economia e habituado a reprimir doleiros ao longo de sua carreira, o delegado conhece como eles operam, seus hábitos e subterfúgios. No capítulo 9 do documento que entregou à Justiça, o delegado fala da "utilização da corrupção e da intimidação". Citou dois episódios para ilustrar sua conclusão. O primeiro é a oferta de US$ 1 milhão que Dantas teria feito para corromper um delegado da PF em troca do engavetamento sumário da Satiagraha. O segundo caso é a tentativa de intimidação da juíza Marcia Cunha Silva Araújo de Carvalho, da 2ª Vara Empresarial do Rio. "Segundo depoimento da magistrada, após decidir uma questão contra o Opportunity, a mesma passou a sofrer uma série de ameaças e atos de intimidação. Na mesma época, o marido dela também teria sido convidado para trabalhar para o Opportunity com uma remuneração altíssima. Após se declarar suspeita, todas as ameaças e tentativas de intimidação cessaram." O novo relatório reedita acusações a Dantas que Protógenes já havia feito, enquanto dirigiu Satiagraha ao seu estilo. A PF afirma que o Opportunity se utiliza de lobistas e manipula a mídia. Destaca as "ferramentas utilizadas pela organização criminosa" assim: "Com o intuito de alcançar seus objetivos, de se manter no controle das companhias e de fazer negócios que tenham um grande retorno financeiro, o Opportunity utiliza-se de diversas ferramentas, lobistas, manipulação da mídia, prática da corrupção e intimidação." "A fim de conseguir seus objetivos a organização criminosa liderada por Daniel Dantas utiliza-se de pessoas influentes, os chamados lobistas, bem como procura manipular notícias e opiniões da imprensa", acentua o relatório. Segundo a PF, "a manipulação de notícias ocorria através de contatos dos membros da organização criminosa com determinados jornalistas que, por motivos diversos, eram simpáticos aos objetivos do Opportunity". Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado, fundador do PT, é citado como "possível lobista utilizado pelos criminosos". Dois outros suspeitos fazem companhia a Greenhalgh, identificado pelo nome Gomes – Humberto Braz, o Guga, e Guilherme Henrique Sodré Martins, o Guiga. "A principal função dos mesmos seria a obtenção de informações de interesse do grupo, a realização de contatos com pessoas importantes, inclusive políticos e integrantes do governo. Faziam ainda um contato com a mídia, objetivando a publicação de notícias e opiniões que pudessem influenciar as autoridades relacionadas a assuntos do grupo."

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