Para PF, lobista esteve no BNDES a mando de Paulinho

Encontros se deram quando Moura já não era conselheiro da instituição

Fausto Macedo e Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2008 | 00h00

A Polícia Federal descobriu que o lobista João Pedro de Moura participou de duas reuniões na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), supostamente para tratar de negócios de interesse do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, relativos à criação da rede integrada de transporte coletivo de Campinas (SP). O primeiro encontro foi em 12 de março. O segundo, em 17 de abril, uma semana antes de Moura ser capturado pela Operação Santa Tereza, que investiga suposto esquema para desvio de verbas do banco estatal.Moura foi preso na manhã de 24 de abril. A PF encontrou em poder do lobista um cartão em que ele se apresenta como assessor de gabinete de Paulinho.A revelação sobre passos recentes de Moura no BNDES faz parte de relatório que o banco enviou à PF. O lobista integrou o conselho de administração do BNDES durante cinco anos, a partir de 2002 e até o início de 2007. Quando participou das reuniões, ele não tinha mais vínculo formal com a instituição.O relatório do BNDES não cita Paulinho, mas, para a PF, a ida de Moura ao banco está relacionada a uma interceptação telefônica que o pegou conversando com Marcos Mantovani, diretor da Progus Consultoria e também réu do caso. O diálogo foi captado em 11 de abril. Os federais resumiram assim o grampo: "Na data de 11 de abril, às 9h36, Mantovani conversa com João Pedro. Tratam de assuntos relativos a projetos na Prefeitura de Campinas e outros assuntos importantes para investigação em curso. João Pedro diz que já está no gabinete para falar com o prefeito a pedido do Paulinho..."A reunião de 12 de março ocorreu na Área de Inclusão Social (AS) do banco, "em virtude de solicitação do sr. João Pedro Moura, para tratar de assuntos referentes a projetos de transportes em Campinas". O texto do BNDES destaca que "existe uma operação aprovada, tendo como beneficiário o município de Campinas, cuja finalidade é a implantação da rede integrada de transporte coletivo".Daquele encontro, que durou cerca de 15 minutos, participaram o superintendente da AS, Júlio Ramundo, a chefe de Departamento de Saneamento e Transportes, Cláudia Prates, o gerente operacional, Charles Marot, e a coordenadora jurídica, Roberta Buarque. "Argumentando a importância do projeto para os trabalhadores da construção civil, o sr. João Pedro Moura questionou sobre a situação da operação de financiamento ao novo Terminal Rodoviário de Campinas (CTRC)", diz a nota do BNDES.Leônidas Scholz, advogado do deputado, rebateu: "Paulinho não teve ingerência sobre a visita de João Pedro a Campinas. Desconheço o encontro. Tudo o que ele tiver de esclarecer será no âmbito do processo para evitar desencontros. Jamais havia ouvido falar dessa história."A assessoria do prefeito de Campinas, Dr. Hélio (PDT), afirmou que a reunião com Moura não ocorreu. Os criminalistas Antonio Ruiz Filho e Carlos Kauffmann dizem que Mantovani não recebeu dinheiro do BNDES e preparou projetos.Frederico Crissiúma de Figueiredo, advogado de Moura, afirmou: "São muito comuns essas reuniões no BNDES para esclarecer os projetos. É tudo tão às claras que o próprio banco mantém registro dessas reuniões, identificando quem participou, qual o assunto em pauta. Nada é feito debaixo do pano."O advogado anotou que seu cliente, "depois de cumprir quarentena associou-se à Progus, cuja especialidade são os projetos". Sobre o grampo, rechaçou: "João Pedro explicou claramente à Justiça que citava o nome do Paulinho em suas conversas como forma de garantir honorários. O resto é ilação, suposições."

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