Para petistas, convite de Serra ao PT e ao PV é estratégia eleitoral

A declaração do pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, de que, se eleito, convidaria o PT e o PV para participarem de seu governo foi interpretada, no PT, como uma clara estratégia eleitoral e, entre tucanos, como um gesto que reflete sua personalidade e estilo de governar. Nos bastidores, nenhum dos dois partidos trata a união formal entre as siglas como uma possibilidade concreta.

Malu Delgado e Julia Duailibi / SÃO PAULO - O Estado de S.Paulo

07 Maio 2010 | 22h20

 

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Parlamentares de esquerda que já atuaram ao lado de Serra _ou no combate à ditadura ou no Congresso _ interpretaram a afirmação do tucano como uma tentativa de "cooptar" a chamada base social do PT, ou seja, acreditam que ele tenta atrair a simpatia de intelectuais, técnicos, e eleitores tradicionais do partido que atuam nos movimentos sociais. Serra, segundo esses políticos, sabe que não conseguirá uma aproximação com o PT pelas vias partidárias formais. No entanto, precisa convencer uma ampla base social hoje atrelada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que reconhece os avanços do governo petista e tem experiência suficiente para se credenciar como seu sucessor.

 

Aliados do tucano acham provável que ele convide quadros do PT e do PV para atuar num eventual ministério seu, a exemplo do que fez quando assumiu o Ministério da Saúde e a Prefeitura de São Paulo em 2005.

 

No Ministério da Saúde, Serra manteve a seu lado vários profissionais do setor simpatizantes ou filiados ao PT, sobretudo na política nacional de combate à Aids. Preservou servidores e deu prosseguimento a programas. Eleito prefeito, convidou o ex-petista Eduardo Jorge (PV) para ocupar a Secretaria de Meio Ambiente. Como parlamentar, Eduardo Jorge foi precursor do debate sobre a fabricação de genéricos no país, em projeto apresentado em 1991, e sobre a reorganização do SUS. Fora do PT, fez parte do governo de Serra na prefeitura de São Paulo e ainda é titular da pasta do Meio Ambiente na administração de Gilberto Kassab (DEM). Tratou, ainda, de dar continuidade a programas implementados pela antecessora Marta Suplicy (PT).

 

“Essa declaração dele não me surpreende, não tenho dúvida de que chamará (nomes de outros partidos). Essa é uma ideia dele”, afirmou o presidente do PSDB e coordenador da campanha, Sérgio Guerra. “Serra apontou para uma agenda comum entre os dois partidos para não ficarem refém de forças retrógradas”, declarou o deputado tucano Nárcio Rodrigues, presente no evento de anteontem, em Minas, quando Serra fez a declaração.

 

O pré-candidato do PSDB tem hoje boa convivência com quadros petistas, como o ex-ministro Antonio Palocci Filho, o ex-deputado Sigmaringa Seixas, o ministro Guido Mantega (Fazenda), o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e o próprio Lula. Com uma formação acadêmica em instituições mais próximas do pensamento de esquerda, como a Unicamp, e a luta contra a ditadura o aproxima de intelectuais e políticos responsáveis pela fundação do PT.

 

Porém, o enfrentamento político entre PT e PSDB nos últimos anos, com a polarização entre os dois partidos no debate eleitoral, praticamente fechou as portas para qualquer união oficial entre as duas legendas.

 

Ex-petistas já flertaram com governos tucanos. Nomes marcantes são o de Francisco Weffort, que foi ministro da Cultura,do governo Fernando Henrique Cardoso após ter ajudado a fundar o PT, e o de Irma Passoni, outra petista histórica que assessorou o então ministro das Comunicações Sérgio Motta também no governo do tucano.

 

O aceno do tucano provocou sentimentos antagônicos no PT. “Isso é demagogia eleitoral. A história do PSDB e da direção do partido é de combate ao Lula e ao PT. Eles são anti-PT. Nos enfrentamos no governo Lula e no governo FHC o PT foi oposição. Ou é ilusão ou faz parte da tática eleitoral do Serra”, reagiu, irritado, o deputado federal José Genoino, ex-presidente nacional do PT. Vice-presidente nacional do PT e um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff à Presidência, Rui Falcão afirmou que "Serra faz oposição a Lula, mas tenta esconder". "A mão que afaga é a mesma que apedreja", disse Falcão, lembrando que enquanto Serra faz elogios a Lula no Twitter seu partido e o DEM traçam uma estratégia de combate ao presidente e a Dilma na Justiça Eleitoral.

 

Já para o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que se recorda do dia em que votou em José Serra para presidir a UNE em 1963, dos tempos de militância no MDB e até hoje mantém uma relação amistosa com o tucano, a afirmação do pré-candidato tucano não soa como um despropósito. “É muito melhor que o Executivo interaja com o Congresso em termos de propósitos e ideias e não em troca de cargos e favores. Por isso, é de bom senso se considerar a possibilidade de ter gente da oposição no governo, e isso vale para todos os candidatos”, disse Suplicy.

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