Para peritos, fortuna de Renan não condiz com renda

A movimentação bancária no período de 2002 a 2006 está acima da renda declarada e o montante a descoberto não tem origem justificada

Vannildo Mendes, do Estadão,

19 de agosto de 2007 | 21h57

A fortuna acumulada pelo presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), nos últimos anos não tem amparo nas rendas de parlamentar e pecuarista. A movimentação bancária no período de 2002 a 2006 está acima da renda declarada e o montante a descoberto não tem origem justificada. Os recibos e notas fiscais apresentados como defesa, muitos emitidos por empresas inidôneas, também não são suficientes para comprovar que Renan faturou R$ 1,9 milhão com a venda de bois no período. Essas três constatações deverão estar presentes no laudo realizado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) da Polícia Federal nos documentos apresentados por ele ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado, onde ele responde a processo de quebra de decoro. Renan é acusado de ter despesas pessoais pagas pelo suposto lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Decisivo para o julgamento do caso, o laudo será concluído nesta segunda-feira, mas a entrega foi marcada para terça-feira de manhã, a pedido do presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, Leomar Quintanilha (PMDB-TO). Uma cópia será entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde foi aberto inquérito para apurar suspeitas de enriquecimento ilícito, uso de documentos falsos, prevaricação e crimes financeiros. Renan alega inocência e confia em que o laudo o absolverá. Os documentos periciados são notas fiscais, recibos e guias de transporte de animais, relativos a supostas operações de venda de gado, com as quais o presidente do Congresso tenta provar que tinha recursos para bancar os R$ 418 mil pagos à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha, a título de pensão alimentícia. O INC também avaliou as declarações de renda de Renan desde 2002, os livros contábeis das suas fazendas e os extratos de movimentações financeiras. Tudo isso para verificar a origem do patrimônio do presidente do Congresso - e se saiu, efetivamente, das contas dele o dinheiro da pensão, como ele afirma, ou da empreiteira, como diz Mônica. Demolidor A perícia responderá a 30 quesitos formulados pelo Conselho de Ética e Decoro e, no geral, o resultado é demolidor para a defesa de Renan, embora algumas respostas lhe sejam favoráveis, segundo informaram à reportagem autoridades que tiveram acesso ao trabalho. O preço do gado que ele diz ter vendido está dentro do valor de mercado e não há sinais de superfaturamento. Ficou demonstrado também que ele tinha recursos suficientes para arcar com a pensão. Mas não ficou comprovado se a pensão saiu da conta dele ou se ocorreram as operações de venda de mais de 2,2 mil cabeças de gado, com as quais alega ter faturado R$ 1,9 milhão em quatro anos. Os documentos que sustentam os negócios estão cheios de inconsistências. Datas das vendas e valores não coincidem com as dos recibos e depósitos bancários. O INC também não conseguiu provas de que a fortuna acumulada pelo senador do PMDB de Alagoas desde 2002 provém das rendas agropecuárias e do salário de parlamentar. Ao contrário, foram detectadas incompatibilidades.

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