Para painel, melhorar gestão é tão importante quanto mais investimento na educação

Durante encontro promovido pela BBC e pela CBN, especilistas disseram que é preciso capacitar melhor os diretores de escolas.

BBC Brasil, BBC

21 de setembro de 2010 | 19h18

Participantes do debate 'A Capacidade do Brasil - O Papel da Educação', promovido pela BBC Brasil e pela rádio CBN nesta segunda-feira, afirmaram que o Brasil precisa ir além do consenso de investir mais no ensino e passar a melhorar a gestão das escolas e faculdades.

O conselheiro da ONG Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, disse que o Brasil investe no ensino menos que seus vizinhos.

Enquanto Argentina, Chile e México gastam por ano cerca de US$ 2 mil com cada aluno, o Brasil investe cerca de US$ 1,4 mil. "Se a gente não profissionalizar a gestão, na primeira chuva esse dinheiro vira lama."

Para o economista e professor da FEA-USP e do Insper, Naércio de Menezes Filho, o gasto do governo com cada aluno é tão pequeno que, em alguns casos, o investimento anual equivale a uma mensalidade de escola privada.

"Mas nem sempre os municípios que investem mais têm um desempenho educacional melhor. Não basta aumentar os recursos, é necessário aprimorar o modo como essa verba é usada", afirma Menezes.

Resistências políticas

A diretora-executiva da Fundação Lemann, Ilona Becskeházy, disse que o primeiro passo seria aplicar a lei existente para regulamentar o investimento em educação. Se a lei for colocada em prática, o gasto do governo passaria de R$ 90 bilhões para R$ 190 bilhões por ano.

"É preciso então dobrar o gasto", disse ela, observando que há "resistências" a esse investimento.

Para os debatedores, o principal entrave para ampliar recursos e aprimorar a gestão está na falta de vontade política que segundo eles existe em vários níveis do governo. "Muitos prefeitos preferem construir pontes", afirmou Menezes.

Segundo os especialistas, questões politicas não representam entraves apenas no âmbito de governos - elas também pode ser um problema dentro dos muros dos colégios.

Ramos afirmou que "é inadmissível que em pleno século 21 ainda haja indicação política para diretor de escola", referindo-se a pressões que, de acordo com ele, são exercidas por líderes comunitários, vereadores e deputados.

"Além das ações pedagógicas, um diretor administra o dinheiro público., afirmou"

Menezes lembra ainda que há graves problemas de treinamento dos diretores: "Muitos não sabem lidar com números, por exemplo."

'Pobreza inominável'

Becskeházy dá a medida do custo dessa má administração: "O dinheiro até chega às Secretarias (de Educação), mas não na sala de aula."

Nesse cenário, segundo a diretora, o que se vê Brasil afora são secretarias com muitos funcionários de um lado e salas de aula extramente pobres. "Mesmo aqui em São Paulo, que vem investindo bastante na educação, você entra na sala de aula e vê uma pobreza inominável."

Para Menezes, os problemas com gestão são uma boa oportunidade para escolas públicas aprenderem com escolas, e também empresas, privadas. "As particulares já trabalham para melhorar as práticas gerenciais, para criar um clima propício para o aprendizado e para avaliar constantemente os alunos."

Além de investir na capacitação dos diretores, os especialistas foram unânimes em defender a valorização dos bons professores. "A carreira (de magistrado) tem de ser mais promissora", afirma Ramos.

Menezes diz que a questão não é apenas aumentar salários. "É preciso criar um mecanismo que atrele a progressão na carreira do professor ao aprendizado do aluno." Para ele, somente ao implementar a meritocracia você consegue atrair as melhores cabeças para ficar diante da lousa.

Realizado no Espaço Reserva Cultural, em São Paulo, o debate foi o segundo da série "O Futuro do Brasil". O próximo encontro acontece na segunda-feira (dia 27) e tem como tema "O Brasil no Mundo - Política Externa e a Defesa do Meio Ambiente".

Participarão do encontro Ricardo Seitenfus, representante da OEA no Haiti, o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia, José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia da USP, e Sergio Besserman, professor de Economia da PUC-RJ.

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