Para os militares fanatismo, para rebeldes a salvação

Tradição de fé e guerra sobrevive ao tempo na região de Lebon Régis

Leonencio Nossa e Celso Júnior,

11 de fevereiro de 2012 | 18h00

Encravado em Rio Bonito, uma localidade de difícil acesso no interior de Lebon Régis, o sítio dos agricultores Célia, 58 anos, e Laurentino Oliveira, 63 anos, é local onde se realiza, nos dias santos, uma tradição de fé e de guerra. O casal reúne parentes e amigos para um ritual pouco conhecido até mesmo na região. É a oração do "terço caboclo", que mistura devoção e palavras de guerra. "As contas do meu rosário são armas de artilharia,/Vou vencer essa batalha, com pai nosso e ave Maria", rezam adultos e crianças numa tarde chuvosa de sábado.

 

Proprietários de pequenos pedaços de terra, os caboclos do Rio Bonito são descendentes de rebeldes do Contestado. O monge João Maria teria dito para os mais velhos que a localidade era o melhor lugar para eles enfrentarem os tempos difíceis do pós-guerra. "São João Maria disse para minha avó Maria que quem mora no Rio bonito, mora dentro de uma barriga de boi gordo, não enfrentará guerra, fome, epidemia e dilúvio", conta Célia.

 

 

Ela e Laurentino têm três filhos e quatro netos, todos moram no sítio de 15 alqueires (um alqueire equivale a 24,2 mil metros), à beira do rio do Irrita, que cai no Bonito, afluente do Timbó, cursos da bacia do Uruguai. A família cria 80 bois, planta milho e feijão.

Um "roxo forte" - café com aguardente - é oferecido aos que chegam para a reza. Fogos de artifício são acesos. Antes da oração, Adelmir, o Bililo, irmão de Célia, toca gaita, como chamam aqui a sanfona.

 

Adultos e crianças se aproximam da grande mesa da sala da casa, em volta de um oratório com imagens de Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião.

Após a oração, Célia distribui pães com carne de porco. "A gente continua levando à frente a devoção. Isso não vai se perder", afirma. Enquanto os convidados se servem, ela mostra um cartaz em que colou fotos antigas da família. Não há retrato da matriarca, Maria Gonçalves, e do patriarca, Sesostriz Tobias, os avós que participaram da guerra. Um filho do casal, Ricardo Tobias, tinha 12 anos quando o Exército chegou à região. Célia conta que Tobias gostava de lembrar os costumes e as dificuldades das pessoas do reduto, que queimavam cintos de couro para matar a fome. Sesostryz e uma filha pequena morreram durante a guerra por falta de comida.

 

A senhora de vestido amarelo em uma das fotografias é Erna, filha de Maria e Sesostryz e mãe de Célia. Erna nasceu um ano depois do fim da guerra e teve cinco filhos. Um deles, Ivo, teve de servir o Exército. "Minha mãe chorava todas as tardes. Ela achava que podia ter outra guerra", diz Célia.

 

Laurentino conta que um vizinho, sobrevivente da guerra, morto há poucos anos, disse que, durante um combate, ao passar por um trecho da mata, ouviu um soldado gritando, pedindo para as pessoas o salvarem. "Seu Vitor Correia contava que pegou uma pedra e soltou na cabeça do soldado, para ele não chamar mais", relata.

 

Na guerra, eles eram os fanáticos. Toda a tradição cumprida hoje pela família de Célia e Laurentino na época do conflito era retratada pelos militares como fanatismo. Enquanto o Exército avançava pela região provocando a dispersão dos rebeldes, o número de homens, mulheres e crianças que chegavam a Santa Maria só aumentava. Os redutos menores eram esvaziados. Espalhou-se a versão de que os verdadeiros seguidores de São João e São José Maria estavam na "cidade santa" fundada por Adeodato Manoel Ramos.

 

Nas suas correspondências, os oficiais sempre se referem aos rebeldes como "fanáticos". Durante a marcha até Santa Maria, não há referências aos problemas sociais enfrentados pela população sertaneja, o que será uma marca da troca de telegramas após a guerra. A 3 de fevereiro de 1915, dois meses antes de chegar a Santa Maria, os militares entram no reduto de Santo Antônio. O comandante da Coluna Norte, Manoel Onofre Ribeiro, informa sobre a operação ao general Setembrino, em correspondência do dia 20. "Santo Antonio caiu em nosso poder, batendo os fanáticos em retirada, perseguidos pelas forças commandadas pelo capitão Salvador e aspirante Pires de Mello. Desde então, não se deixou mais de combater o audacioso inimigo, que, traiçoeiramente, se, emboscava, ora nos flancos, ora na frente, atacando-nos sempre com impectuosidade."

 

Onofre Ribeiro descreve a dificuldade de enfrentar o inimigo. "Em um desfilladeiro que precedia aquele acampamento, foi tão forte a resistência inimiga e tão manifestos seus esforços para nos envolver, que, necessário se tornou a entrada em ação de uma secção da galharda 4" companhia de metralhadoras, que optimos serviços prestou pela sua instrução, disciplina e bravura", escreveu. "Começaram, ahi, as nossas perdas; as redes e padiolas foram solicitadas para a condução de feridos. Continuando a grande série de combates e vencendo a resistência de muitas guardas, emboscadas e reductos, chegamos, ao fim triunphantes ao fachinal do Timbosinho, onde acampamos, distante apenas um quilômetro do formidável reducto do Tomazinho, abandonado, momentos antes pelos seus habitantes que se alarmaram com a debandada que inflingimos à jagunçada daquela zona, até, então sobranceira e altiva", ressaltou. "Foram 11 horas ineterruptas de rehindos combates que cançaram o physio, mas robusteceram a moral da minha brava tropa."

 

No dia 4 de fevereiro, a tropa chegou ao reduto do Tamanduá. "Mandei arrazar o reducto que se compunha de uma igreja, 90 casas e muitas trincheiras. Mandei arrazar tudo que, mais tarde, pudesse servir par acoitar os vis bandoleiros e fomentar a desordem. Assim, a bem sortida casa comercial de Euzebio Padilha, que mantinha relações constantes com os inimigos da lei, conforme evidenciaram as facturas alli encontradas, foi, também, incendiada. 23 foi o número de combate que fomos obrigados a travar."

 

Ele ressalta que "as perdas inimigas foram desta vez consideráveis". "Como ficou afinal verificado, subiu a 164 o número de mortos, visto, afora os que pela rapidez obrigada de nossa passagem, ficaram occultos, pelas densas mattas que margeiam as estradas, por onde caminhávamos", escreveu. "Mandei queimar 1200 casas que compunham os redutos ou marginavam a estrada. (Esses números numa trajetória de 170 quilômetros da coluna norte)."

Tudo o que sabemos sobre:
Contestado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.