Para Ongs, Brasil dá ´mau exemplo´ na inspeção nuclear

Importantes entidades não-governamentais americanas de controle de armas disseram que a resistência do Brasil a inspeções irrestritas da comunidade internacional em suas instalações nucleares é um "mau exemplo" para outros países, como o Irã. No domingo, o jornal The Washington Post disse que o País estaria resistindo a inspeções na unidade de enriquecimento de urânio que está sendo montada em Rezende, no Estado do Rio de Janeiro."Se o Brasil decidiu que quer desenvolver tecnologia nuclear, é essencial que a comunidade internacional possa saber como isto está sendo feito. Senão, podemos começar a ouvir gente argumentando: se o Brasil pode, por que o Irã ou o Japão não podem?", disse John Cirincione, diretor do Projeto de Não-Proliferação do Carnegie Endowment for International Peace, uma das principais organizações pacifistas não-governamentais dos Estados Unidos."Está ficando cada vez mais claro que não podemos permitir que este tipo de tecnologia (enriquecimento de urânio) se espalhe pelo mundo. Com o atual risco que corremos com a proliferação, o argumento de que há necessidade de se proteger informação sensível não tem validade", explicou Cirincione.John Cirincione reconheceu que a Constituição do Brasil proíbe o desenvolvimento ou a posse de armas nucleares. Ele questiona não só a resistência do Brasil a inspeções, mas a própria intenção do País de aperfeiçoar seus procedimentos de enriquecimento de urânio. "Não há razão econômica razoável para o Brasil produzir seu próprio urânio enriquecido, e não podemos mais ter no mundo países buscando tecnologias com o fim de obter status na ordem mundial. O governo dos Estados Unidos está combatendo a proliferação, mas também enviou uma mensagem errada, quando reconheceu a Índia e o Paquistão como potências nucleares", avaliou.O diretor de pesquisas da Associação de Controle de Armamentos, outro importante centro de estudos de Washington, Wade Boesie, defende a idéia apresentada pelo diretor da IAEA, Mohamed El-Baradei de "internacionalização" da produção de urânio enriquecido.Boesie também disse que a intenção do Brasil de desenvolver sua capacidade de enriquecer urânio e a resistência do País a inspeções já são assuntos que separadamente despertam preocupações na comunidade internacional. "Juntos estes dois elementos se tornam muito perturbadores. Se o Brasil quer ser visto e respeitado como um País detentor de tecnologia nuclear responsável, o governo tem de aceitar inspeções da comunidade internacional. Resistir a elas seria um mau exemplo", disse o pesquisador. "Acho que, com a atual situação do risco de proliferação de armas no mundo, nenhum país tem o direito de recusar inspeções."

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