DIDA SAMPAIO/ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Para o 2º mandato, uma Dilma mais 'Dilma'

Presidente volta a subir a rampa do Planalto com gestão mais autoral e menos dependente de Lula

VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2015 | 02h02

Acostumada a surpreender os interlocutores, Dilma Vana Rousseff guarda até hoje um segredo que criou para proteger os companheiros de jornada nos interrogatórios da ditadura. Quando está sob pressão, ela constrói um quadrado em sua mente, joga a história a ser contada lá dentro, repete o "roteiro" à exaustão e não sai um milímetro das linhas imaginárias. Nos anos de chumbo, a técnica servia para salvar vidas. Em seu governo, é usada como escudo diante das críticas dos adversários e também do fogo "amigo".

Primeira mulher eleita presidente do Brasil, há quatro anos, a Dilma que subirá hoje pela segunda vez a rampa do Palácio do Planalto tem outro script para pôr nesse quadrado. Apesar de manter o estilo avesso aos rituais da política, ela está mais pragmática do que em 2011 e montou um núcleo de comando no Planalto à sua imagem e semelhança, ignorando as pressões do PMDB e das correntes internas do PT.

"Uma das coisas que a gente aprende quando é presidente é que não pode temer a crítica, nem ficar com raiva e muito menos achar que está acima do bem e do mal", disse ela ao Estado. "Hoje, no Brasil, há uma democracia consolidada e cada um é livre para tomar a posição que quiser. Sou de uma geração que viveu o horror da ditadura, mas hoje em dia há quatro manifestações por dia e ninguém dá a menor pelota."

Menos dependente de Luiz Inácio Lula da Silva, com dificuldades à vista na política e trepidações na economia, Dilma parece disposta a ser mais Dilma neste segundo mandato, mesmo que para isso tenha de enfrentar o seu partido. Odeia ser chamada de "criatura", em contraposição a seu "criador", e quer uma marca de governo para chamar de sua.

Na tentativa de blindar o governo das denúncias de corrupção na Petrobrás, que podem levar para a cadeia integrantes da base aliada, a presidente reduziu o espaço do PT e entregou ministérios fortes a políticos com importantes bancadas no Congresso. Nessa empreitada, escalou o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) para Cidades e encaixou o ex-governador do Ceará Cid Gomes (PROS) em Educação, desalojando o PT da pasta que mantinha desde 2003, no primeiro ano da gestão Lula.

Refém. A estratégia montada agora por Dilma é para não ficar refém do PMDB do vice Michel Temer, na difícil relação com o Congresso. A solidão, porém, ainda acompanha a presidente. Do grupo petista mais próximo a ela no primeiro mandato sobraram apenas o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Nenhum dos dois tem a bênção de Lula.

Supersticiosa, Dilma bate na madeira três vezes sempre que a oposição aponta possíveis problemas com o novo ministério. "É para não dar mau olhado", justifica. Quando questionada sobre mais um loteamento da Esplanada, ela reage com irritação. "Eu não demonizo indicação política. Euzinha aqui, ó, não faço isso porque é de um simplismo grotesco. É não ver um palmo à frente do nariz do que ocorre no resto do mundo", esbraveja.

Em novembro, Lula chegou a discutir com Dilma a conveniência de manter a presidente da Petrobrás, Graça Foster, mesmo sob intenso bombardeio da oposição após a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que escancarou um esquema de desvio de dinheiro na estatal. Dilma defendeu Graça como protegeu os amigos que lutaram com ela, nos anos 70, em organizações de extrema-esquerda.

Apesar da corrupção desvendada na Petrobrás e do favoritismo da candidatura do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), desafeto do governo, para o comando da Câmara, ela rejeita a palavra "crise"para se referir ao atual cenário de adversidades. "Crise? Que crise? Tudo isso é lorota", amenizou a presidente, pouco antes do Natal.

"Lorota", "pratrasmente" e "dose pra mamute" foram termos incorporados ao mundo político na era Dilma. "Vocês podem não acreditar, mas a Dilminha vai mudar", garantiu Lula em recente conversa com senadores e deputados do PT, num hotel de Brasília, diante das queixas de correligionários sobre a sucessora. Vinte e dois dias depois daquele diálogo, no entanto, Dilma contrariou interesses da corrente de Lula na composição do "núcleo duro" do governo e chamou uma dupla de sua confiança - Miguel Rossetto e Pepe Vargas - para ocupar assentos no Planalto.

Chacoalhão. Com a imagem forjada ao longo do primeiro mandato, a nova Dilma que está na praça ganhou força na campanha, quando enfrentou uma briga acirrada com o senador Aécio Neves (MG), candidato do PSDB. De lá para cá, percebeu que precisava dar respostas urgentes à sociedade, numa espécie de segundo round do chacoalhão levado por ela com os protestos de junho de 2013.

Depois do escândalo na Petrobrás e diante das dificuldades para reagir ao desgaste do rótulo de boa gerente, corroída por atrasos nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), coordenadores da campanha e até mesmo Lula acharam que Dilma perderia a eleição. Seria um baque para o ex-presidente, candidato natural do PT à disputa de 2018.

Vitoriosa, ela não teve dúvida em repaginar o discurso crítico à ortodoxia econômica e, num movimento inesperado, convocou Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Ex-secretário do Tesouro no primeiro mandato de Lula, Levy sempre foi atacado por petistas por cortar gastos públicos e promover um ajuste fiscal maior do que a encomenda. A própria Dilma via com reservas o estilo de "Levy mãos de tesoura". Acabou cedendo para acalmar o mercado e os empresários, assustados com a estagnação da economia.

Mesmo com as "ideias novas" de sua propaganda, a mulher que trocou a letra "e" por "a" para virar presidenta continua dando broncas no Planalto e deixando subordinados à beira de um ataque de nervos ao pedir tarefas "para ontem". Tem, no entanto, manias curiosas.

Em viagens internacionais, por exemplo, Dilma costuma levar "marmitas" com produtos "made in Brazil", como ovos de galinha caipira. Seu medo de avião é tanto que ela aprendeu a ler as cartas meteorológicas e traça roteiros com o piloto para desviar de turbulências, mesmo que dê imensas voltas para chegar ao destino.

Fascinada por livros, a presidente também já deixou auxiliares em pânico por causa de um abajur. Numa viagem a Madri, em 2012, ela chegou a rejeitar mais de três abajures, porque nenhum deles iluminava a contento sua leitura de cabeceira.

Quando não tem livro "na fila" ou relatório para ler, Dilma pega na biblioteca um romance de Georges Simenon para treinar o francês.

No Palácio da Alvorada, sua maior alegria é a visita do neto Gabriel, de quatro anos, que mora em Porto Alegre. "Quero que ele fique daquele tamanho o máximo que puder. Não tem nada mais bonito que menino dessa idade. Os meninos são ingênuos, coitadinhos. As meninas, não. Elas são vivas, maquiavélicas", diz a presidente.

Na solidão do governo, Dilma põe sua verdade dentro do quadrado. Neste segundo mandato, ela promete um estilo "paz e amor", mas nem aliados acreditam na mudança radical do figurino da dama de ferro.

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