Para Marina, o planeta é verde

Programa da candidata do PV prioriza política ambiental, direitos humanos e uma reforma geral da ONU

O Estado de S.Paulo, Patrícia Campos Mello

08 de agosto de 2010 | 00h07

Aproximação do Brasil com regimes não-democráticos está corroendo o chamado soft power do País, a reputação que permite a um governo influenciar outras nações. E o Brasil está desperdiçando energia ao tentar mediar questões mundiais complicadas. Essa é a visão do advogado Eduardo Felipe Matias, que ajudou a elaborar as diretrizes da candidata Marina Silva para política externa e vem dando sugestões à campanha da candidata do PV.

 

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"O Brasil deveria abraçar a bandeira da sustentabilidade e da mudança climática para alcançar o tal protagonismo internacional, em vez de tentar mediar causas polêmicas como a crise iraniana e a tensão no Oriente Médio", diz Matias, especialista em Direito Internacional e autor do livro A Humanidade e suas Fronteiras - do Estado Soberano à Sociedade Global.

 

Para Matias, o Brasil está "endossando regimes que não deveriam ser endossados de nenhuma maneira. Não dá para abrir mão de defesa de direitos humanos, esse pragmatismo antigo prejudica nosso soft power". Um exemplo seria a frase de Celso Amorim de que "negócios são negócios" quando o presidente Lula esteve com o ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Mbasogo.

 

As diretrizes de política externa divulgadas pela candidata afirmam que o Brasil "deve dirigir a sua política externa com base em princípios sólidos, e não em conveniências imediatas; o Brasil deve passar a ser visto como uma nação coerente, que abraça as causas corretas, lidera pelo exemplo e assim fortalece seu poder de persuasão e a sua influência no cenário internacional".

 

Marina já afirmou que o Brasil tem uma atitude "preocupante" em relação ao Irã e a Cuba. "O Irã tem desrespeitado direitos humanos, ali tem presos políticos, pessoas são executadas", disse. "Causou estranhamento a audiência dada ao governo do Irã (pelo governo brasileiro)", disse ela em outra ocasião. E sobre Cuba: "Se de fato somos amigos, temos de fazer ver que a revolução se completa com a democracia", afirmou. "Se os direitos humanos são importantes para os brasileiros, também são importantes para os cubanos."

 

A senadora, no entanto, disse não apoiar a decisão do Conselho de Segurança da ONU, instado pelos EUA e França, de impor sanções comerciais contra o regime iraniano. "Não sou favorável a sanções. O único caso em que elas funcionaram foi na África do Sul, contra o regime do apartheid. Os bloqueios acabam exacerbando situações e não favorecem o diálogo", disse Marina em entrevista a jornalistas em Nova York.

 

Um dos pontos enfatizados nas diretrizes da candidata é a necessidade de aprofundar a reforma de instituições multilaterais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, e o Conselho de Segurança da ONU. Matias diz que o sistema atual "não tem legitimidade", porque não reflete adequadamente os países emergentes. Também critica o atual Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que discrimina os países que não dispõem da bomba.

 

O advogado apoia a iniciativa do governo Lula nessa direção, mas acha que será preciso avançar mais. "Os Estados Unidos ainda vão manter uma grande porcentagem dos votos do FMI e o direito a veto, mesmo após a reforma atual", diz Matias. "É preciso que o Brasil, muitas vezes prejudicado por essas ‘regras do jogo’ desiguais, seja um veemente defensor da legitimidade nas instituições internacionais", sustentam as diretrizes.

 

Para o advogado Matias, a política de diversificação de mercados e maior enfoque em países em desenvolvimento, adotados durante o governo Lula, foram muito importantes. Mas o relacionamento com os norte-americanos precisa ser resgatado. "Precisa haver maior ênfase na relação com os Estados Unidos, que não avançou nada."

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