Para Lula, derrota da oposição no Senado do Piauí é vingança divina

Em tom de desabafo e despedida presidente faz balanço de seus anos na Presidência

14 de outubro de 2010 | 15h04

TERESINA - Em tom de despedida e desabafo, o presidente Lula afirmou nesta quinta-feira, 14, que Deus fez a vingança que ele queria com os senadores que votavam contra o governo. O presidente mandou recado também a seus críticos, que salientam o fato de não ter estudado e de que, portanto, não saberia governar.

 

"A arte de governar não se aprende em universidade, senão pegavam um na Academia Brasileira de Letras para ser presidente. A arte de governar é como a arte de ser mãe, cuidar da família, garantir direitos e oportunidades a todos", assinalou Lula durante o discurso na quadra poliesportiva do Instituto Federal Tecnológico do Piauí, em Teresina.

 

Falando sobre a oposição, Lula fez menção implícita a Heráclito Fortes (DEM) e Mão Santa (PSC), derrotados na eleição do Piauí para o Senado e que votaram contra a continuidade da CPMF. "Eles pensaram que iam me prejudicar, mas prejudicaram ao povo que precisa do SUS, de pronto-socorro, de remédio. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Ele fez a vingança que eu queria e colocou gente de respeito no Senado", disse Lula.

 

Seguindo o tom de despedida, o presidente fez uma autoavaliação do seus quase oito anos de governo. "Eu agradeço a Deus e valeu a pena passar esse tempo no governo. Não vamos aceitar que dividam o país em primeira classe , que podem tudo, e em segunda classe, onde não podem nada. Cansamos de ser tratados como segunda categoria", afirmou.

 

Lula está contando os dias para deixar a Presidência. "Em 77 dias estarei entregando a faixa presidencial. Mas saio com a sensação de dever cumprido, com a sensação que poderia ter feito mais, mas embora não tenha feito tudo, fizemos mais que os outros governos anteriores", disse.

 

O presidente lembrou ter ainda perdido muitas eleições e ressaltou o peso do fato na sua trajetória: "Isso serviu de ensinamento e teve muita frustração. Eles tinham medo e por isso contavam muita mentira a meu respeito. Diziam que era comunista, porque tinha a barba comprida. Mas Jesus também tinha barba comprida, Tiradentes também tinha. Quantas vezes tive que responder e pagar o preço, porque a bandeira do meu partido é vermelha, porque tem uma estrela na bandeira, responder sobre aborto, quem contra fica jogando casca de banana para ver se a gente pisa e cai", reclamou.

 

Segundo Lula, rico não precisa de governo, quem precisa de governo é pobre que precisa de saúde, educação, segurança, emprego. "Não vamos ficar atrás de números de estatísticas, porque por trás de cada número tem um ser humano. É preciso governar com consciência e com coração. Hoje pobre pode ser doutor, pode viajar de avião, vai para Europa. Mas o outro governo ficou oito anos e não cuidou do país, não atendeu aos pobres. Ao contrário, fez uma lei que levou o governo a não poder cuidar das escolas técnicas. Então valeu a pena eu passar pelo governo", enfatizou o presidente.

 

Sobre sua atuação após deixar o cargo, Lula deixou claro que não pretende se ausentar da vida pública. "Eu não saio apenas, não vou apenas passar o bastão. O povo é que é o dono do País. E não pode permitir que voltemos ao passado do desespero, do descaso. Cansamos de sermos tratados como vira-latas. E eu não vou descansar quando sair da Presidência. Não vou me trancar para velhice tomar conta de mim. A velhice vai ter que correr atrás de mim."

 

Ao longo do discurso, Lula quebrou o protocolo várias vezes e pegou o microfone para dizer: "Vocês sosseguem o facho, apaguem o fogo, porque aqui é um evento oficial da Presidência da República". A reclamação do presidente foi dirigida à militância qque acompanhava o discurso e gritava o nome de Dilma e de Wilson Martins.

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