Para Lula, coalizão terá candidato único em 2010

Para acabar com ciumeira em relação ao PMDB, presidente renovou compromisso de tratar igual a base

VERA ROSA, Agencia Estado

15 de agosto de 2007 | 21h39

Em animada reunião na noite de terça-feira com as bancadas do PDT na Câmara e no Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amenizou a disputa política escancarada na base aliada e disse ter certeza de que os partidos da coalizão governista terão um único candidato à sua sucessão, em 2010. Na tentativa de aplacar a ciumeira em relação ao PMDB, parceiro preferencial da aliança, Lula renovou retoricamente o compromisso de tratar todos os partidos da base em pé de igualdade. Queria, na prática, conter as insatisfações no núcleo de apoio ao Palácio do Planalto."Garanto a vocês que os partidos aliados do governo disputarão a eleição presidencial de 2010 com um único candidato", afirmou o presidente. Não disse, porém, quem vai apoiar. Mais: argumentou que não é boa tática lançar uma candidatura muito cedo porque os apressados viram alvo fácil da oposição. O PDT integra o chamado "Bloquinho" na Câmara, ao lado do PSB e do PC do B. O grupo sonha em lançar Ciro Gomes (PSB) para a cadeira de Lula, daqui a três anos, e já dá cotoveladas no PT.Ao defender a necessidade de uma ampla reforma política para resgatar o caráter "nacional" dos partidos, Lula citou o ex-chefe da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu e reclamou que o PT não o obedece mais. "Quando o PT era pequeno, a gente mandava, tinha controle, eu e o Zé Dirceu", contou o presidente, de acordo com relatos de quatro participantes do encontro. Dirceu comandou o PT de 1995 a 2002, época em que Lula foi presidente de honra do partido.Sem fazer referência explícita à sucessão de crises protagonizadas por petistas, o presidente observou que, ao crescer, o PT enfrentou inúmeros desafios, entre os quais o de ver muitas decisões da cúpula nacional desobedecidas por lideranças regionais. Citou como exemplo o caso de Luizianne Lins (PT), eleita prefeita de Fortaleza, em 2004, contrariando a direção do partido, que apoiou Inácio Arruda (PC do B), hoje senador.A exemplo do discurso feito recentemente em reunião do Conselho Político, Lula pregou a união dos partidos da base já nas eleições municipais de 2008. "Em Campinas, por exemplo, não quero nem saber o nome do candidato a prefeito do PT", comentou ele. "Lá, eu vou apoiar o Dr. Hélio", completou, numa referência ao prefeito de Campinas, do PDT, que é candidato à reeleição. Lula lembrou a amizade e as desavenças com Leonel Brizola, presidente do PDT que morreu em 2004 e foi candidato a vice em sua chapa, na eleição de 1998. "Eu e o Brizola já estivemos com padre e padrinho no altar, mas não deu", afirmou. Disse, depois, que se arrepende de não ter feito alianças mais amplas no passado, incluindo na lista o PMDB. "Nós todos erramos", insistiu.Etiópia     Mais uma vez, Lula criticou a imprensa que, no seu diagnóstico, apresenta as notícias como se o Brasil estivesse em situação econômica catastrófica. "Se eu fosse estrangeiro, tivesse conhecimento do Brasil através da imprensa e 30 centavos no bolso, eu preferiria investir na Etiópia", provocou. Sem mencionar diretamente a crise internacional das Bolsas de Valores, Lula disse não ver motivos para o pessimismo estampado pela mídia porque a economia do Brasil é sólida. "Antigamente, alguém dava um espirro lá fora e o Brasil pegava uma pneumonia. Hoje não é mais assim", ponderou.Dirigindo-se ao ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, Lula cobrou um cronograma para liberação das emendas parlamentares individuais. "Precisamos fazer isso para evitar que, nos momentos de crise, a imprensa diga que há um toma-lá-dá-cá", advertiu. O ministro do Trabalho, Carlos Luppi, que é filiado ao PDT, assentiu com a cabeça.A conversa chegou até a votação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Lula disse que a arrecadação prevista da CPMF para este ano (R$ 36,2 bilhões) equivale à receita de quatro ministérios. Num exagero retórico e sem citar pastas, afirmou que, se a CPMF não for renovada, "ministérios terão de fechar". O presidente também dirigiu estocadas à oposição. "Acho uma bobagem o que o PSDB e o DEM estão fazendo com a CPMF", desabafou. O DEM é contra esticar a validade da contribuição e os tucanos querem a redução gradual da alíquota do chamado "imposto do cheque", além da partilha desse dispositivo com os Estados.No fim da reunião, o deputado Barbosa Neto (PDT-PR) provocou gargalhadas ao imitar Lula. Caprichando no tom de voz grave, ele ironizou termos freqüentemente usados pelo presidente. "Nunca na história deste País o Corinthians esteve tão ruim", bradou Neto. "Quero ver, então, se o senhor arruma um dinheirinho do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para não deixar o Corinthians cair na segunda divisão". Lula, que é corintiano roxo, ficou vermelho de tanto rir.

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