Para Lula, América Latina vive momento 'progressista'

Em encontro com o presidente eleito do Peru, Ollanta Humala, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou a eleição do esquerdista peruano e disse que, ao contrário da Europa, a América Latina passa por uma onda progressista, pela primeira vez em cinco séculos. "Enquanto no continente europeu há uma ''direitização'' do processo político-eleitoral, onde os conservadores estão ocupando os espaços, na América Latina os setores progressistas estão ocupando os espaços", disse o ex-presidente, ao considerar o êxito de Humala uma vitória de toda a União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

DAIENE CARDOSO, Agência Estado

10 de junho de 2011 | 18h31

"Há 10 anos era só Chávez, há 8 anos era Chávez e Lula, depois Chávez e Kirchner, depois Tabaré Vázquez, depois Evo Morales, depois Correa, Daniel Ortega, Mauricio Funes e, agora, o companheiro Ollanta", listou, referindo-se aos presidentes eleitos, pela ordem, da Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador, Nicarágua, El Salvador e Peru.

Com seu "fluente" portunhol, Lula participou de uma entrevista coletiva de 50 minutos ao lado do peruano, que ontem esteve com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília. Eles se reuniram num hotel dos Jardins, região nobre de São Paulo, numa sala onde foram colocadas uma bandeira do Peru e outra do Brazil. "Se o Ollanta chegar ao poder e for um fracasso, estamos derrotados", avaliou o ex-presidente brasileiro.

Desde que saiu da presidência, Lula não havia concedido tantas declarações aos jornalistas. Mas, para o novo governo peruano, o encontro com Lula era fundamental para a imagem de Ollanta, já que o presidente eleito é visto com desconfiança por alguns setores de seu país por sua relação com o venezuelano Hugo Chávez. Questionado pelos jornalistas peruanos se Ollanta seria o Lula peruano, o brasileiro respondeu: "Ele será o Ollanta peruano." Já o presidente eleito evitou admitir que Lula era sua inspiração política, e não Chávez. "Os governos têm seus caminhos próprios. O caminho é aprender e não copiar", rebateu.

Lula não perdeu a oportunidade de alfinetar o governo norte-americano. Para o ex-presidente, os Estados Unidos ainda veem a América Latina como o parente pobre. "Os Estados Unidos não podem enxergar a América do Sul e a América Latina como o primo pobre, como problema. Nós somos a solução", disse.

Embora assessores do PT tenham trabalhado diretamente na campanha de Ollanta, Lula disse que torceu de longe por Ollanta e que o único contato que teve com o peruano foi em fevereiro, quando conversaram sobre as campanhas presidenciais no Brasil e a experiência aprendida com as derrotas do petista. "Ele (Ollanta) foi mais rápido e mais competente que eu", brincou Lula, referindo-se às suas derrotas antes da vitória em 2002.

Setores econômicos

Numa tentativa de acalmar os setores econômicos do Peru, Lula lembrou que passou pela mesma experiência em 2002, ao ser eleito para o primeiro mandato. "A história se repete. Os mesmos que fazem pressão sob o Ollanta faziam pressão aqui", contou. "Acho que o tempo da dúvida do povo peruano acabou", emendou. Lula disse que a América Latina estava acostumada a ter líderes que governavam para uma minoria e que esse quadro mudou. "Quando a gente dá US$ 1 milhão para o rico, vira conta bancária e especulação. Quando a gente dá US$ 10 para o pobre, aquilo vira comida", ensinou ao presidente recém-eleito.

No encontro com Ollanta, Lula orientou o peruano sobre como implantar um plano federal para combater a miséria. O ex-presidente recomendou que Ollanta faça um cadastro da população a ser atendida e que não tenha receio de copiar programas de sucesso implementados em outros países, incluindo a Venezuela. "Não existe fantasma de Hugo Chávez, temos de respeitar a história peruana. Se tiver alguma coisa de extraordinária na Venezuela, pode utilizar, mas o jeito de governar será o jeito peruano", rebateu.

Durante a campanha peruana, Ollanta disse que se espelharia no modelo brasileiro de desenvolvimento. Perguntado pelos jornalistas peruanos sobre como ter um governo voltado para o social sem ser populista, Lula recomendou a uma jornalista peruana que ficasse mais tempo no Brasil para conhecer seus programas sociais."Você terá um retrato fiel do que acontecerá com o Peru", sugeriu.

No final do encontro, Lula desejou sorte ao peruano."Que o povo pobre do Peru possa tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias", afirmou. "Quanto menos pobres no Peru, mais gente ganhará dinheiro."

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