Para levar nome de Vieira à Casa Civil, Rose usou proximidade com Dirceu

E-mails interceptados pela Polícia Federal mostram como ex-chefe de gabinete regional da Presidência queria que ex-ministro ajudasse a emplacar Paulo Vieira na diretoria da ANA

Alana Rizzo, Fábio Fabrini e Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo,

30 de novembro de 2012 | 23h59

Uma sequência de e-mails interceptados pela Polícia Federal revela como a ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, usou a proximidade com o ex-ministro José Dirceu para emplacar a nomeação de Paulo Vieira como diretor da Agência Nacional de Águas (ANA). Rose queria que Dirceu, afastado do governo desde 2005 após o escândalo do mensalão, influenciasse a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, na escolha de Vieira para o posto. Os documentos fazem parte do inquérito da Operação Porto Seguro, que desarticulou a organização que vendia pareceres técnicos de órgãos da administração pública.

“Surgirão agora em meados de abril duas vagas. Pelo que consegui observar, quem vai definir mais a questão é a Dilma. A pessoa que acho que consegue fazer esse pedido a ela, de forma eficaz, é o JD. Na minha opinião, um pedido pessoal seu ao JD, tratando a questão como de interesse pessoal seu, ganha muito mais força”, sugere Paulo Vieira em e-mail de 25 de março de 2009. A demanda foi feita horas depois de Rose passar detalhes do cruzeiro que queria fazer com a família, com apresentação da dupla sertaneja Bruno e Marrone, e que seria custeada pelo grupo criminoso, segundo a PF.

Em outro e-mail, a ex-chefe de gabinete da Presidência garante que vai conversar com Dirceu sobre a indicação para a agência. Em 4 de agosto de 2009, Rose informa Paulo: “O JD me chamou para conversar. Vou lá hoje a tarde e te dou notícias”. Em 10 de agosto, um novo e-mail: “Estou aguardando notícias do JD, mas acho que o melhor é a Dilma. Mais tarde te dou retorno”.

Em uma hora, veio a resposta de Paulo Vieira, também por e-mail: “Sobre a ANA, também acho que a questão central é com a Dilma, fiquei muito animado com a possibilidade do JD falar sobre o assunto com ela. Qual a sua avaliação da questão até aqui? Fico por aqui. Abraço, Paulo”. Segundo a PF, a troca de e-mails entre Vieira e Rose sobre a nomeação na ANA começou em março de 2009 e seguiu até novembro.

Erenice. Incomodado com a demora na escolha de seu nome, Paulo cobra uma gestão da então chefe de gabinete da Presidência em São Paulo no caso. “Infelizmente não tenho o que fazer até sexta-feira. Vou tentar falar mais tarde com a Erenice”, responde em 5 de novembro, referindo-se a Erenice Guerra, ex-secretária executiva da Casa Civil que substituiu Dilma em 2010, ao sair candidata a presidente pelo PT. O nome de Paulo Vieira foi levado ao Senado em dezembro de 2009 e foi rejeitado. Em abril do ano seguinte, foi aprovado como diretor da ANA.

Exonerada no sábado, Rose trabalhava no governo desde 2003. Próxima do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela também foi assessora de José Dirceu por mais de dez anos. Na quebra de sigilo eletrônico, a PF encontrou até um convite do aniversário do ex-ministro. No corpo do e-mail, que foi enviado por Rose aos irmãos Vieira, o texto: “Venha comemorar o aniversário do amigo Zé”. As correspondências eletrônicas mostram que a ex-chefe de gabinete da Presidência fazia questão de destacar seu relacionamento com Dirceu.

Ofício. Em nota, o Palácio do Planalto informou que “a então ministra-chefe da Casa Civil não tratou do assunto com as pessoas citadas, nem atuou para a indicação ao cargo de diretor na Agência Nacional de Águas (ANA)”. “O que ocorreu foi apenas o envio de um ofício do deputado Sandro Mabel à Casa Civil.”

Também por nota, Dirceu considerou “irresponsável” qualquer associação a seu nome com a Porto Seguro. Ele afirma que o Ministério Público Federal em São Paulo não encontrou indícios de sua participação no esquema.

Rose nega ter cometido tráfico de influência ou ato de corrupção enquanto esteve no cargo. Em nota divulgada na quinta-feira, 29, ela afirma que, “enquanto trabalhou para o PT ou para a Presidência, nunca fez nada ilegal, imoral ou irregular que tenha favorecido Dirceu ou Lula em função do cargo que desempenhavam”. Ainda ressaltou que nunca soube de qualquer relação pessoal ou profissional deles com os irmãos Vieira. Na sexta-feira, 20, seu advogado não quis comentar o caso, assim como o representante de Paulo Vieira.

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