Para Jungmann, MST está sem rumo

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) protocolou nesta terça-feira um pedido de audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso para protestar contra a política de reforma agrária do governo federal.Os sem-terra estão com um acampamento montado desde a noite da terça-feira passada, em frente ao ginásio de Esportes Nilson Nelson, em Brasília, e organizaram uma passeata até o Palácio do Planalto, onde se uniram aos servidores públicos federais, em greve há quinze dias.A caminhada faz parte de uma série de atividades realizadas pelo movimento em todo o País, incluindo a ocupação de sedes do Incra em diversos estados. Depois da passagem pelo Palácio, eles passaram pelo Ministério da Fazenda, vaiaram o ministro Pedro Malan e retornaram ao acampamento, do qual garantem que não saem tão cedo.?Flexibilidade governamental?Para o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, o fato de o MST organizar uma ação deste porte 15 dias depois de sentar para negociar com o governo é um sinal de que o movimento está sem rumo. ?Você não negocia uma pauta e depois mantém as mesmas atitudes como se nada tivesse sido conversado?.Ele afirma que o próprio MST reconhece a flexibilidade governamental. ?Só que existe a necessidade de politizar o movimento, em virtude do Grito dos Excluídos?.O acampamento em Brasília, batizado de Eldorado dos Carajás, conta com representantes de todos os 23 estados onde o movimento vem centralizando suas ações. A Coordenação Nacional do MST esperava que cerca de mil sem-terra participassem da caminhada na Esplanada, mas o número não chegou a 400.ReivindicaçõesAs principais reivindicações são a liberação do crédito de custeio para 300 mil famílias, o assentamento imediato das 85 mil famílias acampadas e a implementação de programas sociais nas áreas de educação e saúde.Uma das principais discussões entre governo e MST refere-se ao número de famílias à espera de assentamento. De acordo com um dos coordenadores nacionais do MST, João Paulo Rodrigues, existem hoje cerca de 85 mil famílias acampadas em todo o Brasil, aguardando uma definição do do governo federal.?Ninguém foi assentado neste ano, o que demonstra o descaso do governo com a necessidade de se fazer uma reforma agrária de fato?, protestou outro líder do movimento, Valdir Misnerovicz.?Exagero?Para Jungmann, levando-se em conta uma família composta por cinco membros, seria um exagero dizer que existem atualmente 85 mil famílias acampadas à espera de terra. ?Isso significa que há quase meio milhão de pessoas sob o comando do MST, quando é sabido que nenhum movimento social tem essa amplitude no Brasil?.Sobre a ausência de ações efetivas de assentamento nesse primeiro semestre, o ministro tem uma justificativa. ?Nos primeiros seis meses do ano, nós aproveitamos para fazer as vistorias e regularizar as documentações, incluindo a emissão de Títulos da Dívida Agrária (TDAs). A grande velocidade dos assentamentos acontece de fato no segundo semestre?.João Paulo Rodrigues culpou a falta de poder do ministro Jungmann pela ausência de uma política agrária. ?Ele é bom de papo, mas a questão acaba esbarrando no ministro da Fazenda, Pedro Malan, e no presidente Fernando Henrique Cardoso.?O ministro disse que o MST não pode se ater apenas aos números, mesmo porque, segundo Jungmann, não há como contestar os dados do movimento. ?Os assentamentos feitos pelo governo podem ser comprovados com uma auditoria externa, independente. Mas o MST pode inventar o número que quiser, que não temos como averiguar.?

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