Para Itália, decisão do caso Battisti foi política

Governo italiano critica STF por liberação de ex-ativista e chama embaixador de volta

Jamil Chade / CORRESPONDENTE, GENEBRA

10 de junho de 2011 | 23h00

A Itália eleva a pressão sobre o Brasil, suspende acordos, chama seu embaixador do País e acusa o governo de ter pressionado politicamente o Supremo Tribunal Federal (STF) a libertar o ex-ativista Cesare Battisti, na quarta-feira. "Diante do ocorrido, não há diplomacia que se sustente", declarou o ministro de Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, na manhã de ontem.

 

O governo de Silvio Berlusconi já havia anunciado que levaria o caso à Corte Internacional de Haia, mas não tomaria qualquer tipo de iniciativa diplomática contra o Brasil. Ontem, o discurso mudou e, por ordens do próprio Berlusconi, subiu o tom das críticas e ameaças. O governo brasileiro não acreditava em impactos na relação bilateral.

 

"Havíamos esperado uma decisão serena da autoridade brasileira. No lugar disso, vimos uma decisão política, e não jurídica", reforçou Frattini. Para ele, tanto a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto a de Dilma Rousseff teriam feito "pressão política" para o STF decidir pela libertação de Battisti.

 

O embaixador italiano no Brasil, Gherardo La Francesca, foi convocado por Roma logo no início da manhã. A decisão não significa o rompimento das relações – a Itália deixou claro que o retorno do diplomata seria "temporário". Mas não disfarça que se trata de um gesto claro de protesto contra o Brasil. Em seu comunicado, o governo diz que a convocação tem como função "aprofundar, junto às outras instâncias competentes, os aspectos técnico-jurídicos relativos à aplicação dos acordos bilaterais existentes", além de avaliar "as iniciativas e os recursos" diante das cortes internacionais.

 

Rompimento. Além do governo nacional, iniciativas de gestões regionais também mostram a reação contrária dos políticos italianos à libertação de Battisti. Carlo De Romanis, vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da região de Lazio, apresentou uma proposta ao governo local para "suspender toda iniciativa política, acordos comerciais ou de turismo com entidades brasileiras". "O objetivo é sensibilizar o governo brasileiro", afirmou.

 

Monumentos e pontos turísticos do país oferecem descontos a brasileiros de origem italiana. Dezenas de acordos de cooperação também existem entre diversas regiões. O conselheiro regional afirmou que a proposta está sendo debatida entre deputados no Parlamento nacional para que uma ação similar seja adotada em toda a Itália.

 

Uma ação ainda mais concreta veio da cidade de Ravenna, que anunciou ontem o rompimento de um acordo de cooperação com a cidade de Laguna (SC). A entidade da região Fondazione Risorgimento financiava a renovação de um mosaico e de prédios na cidade brasileira. "Será dessa forma que mostraremos nossa indignação em relação à decisão do Brasil de liberar um terrorista", declararam as autoridades da cidade, em nota. A região da Lombardia também iniciou ontem o debate sobre medidas de suspensão de acordos com o Brasil.

 

Protestos. A decisão de convocar seu embaixador e prometer levar o caso a Haia também é uma forma de Berlusconi se defender dos ataques da oposição e até de críticas dos países vizinhos. Fragilizado pela crise econômica e por repetidos escândalos, o governo agora teme ter sua imagem arranhada no plano internacional. Ontem, jornais europeus apontavam como Berlusconi havia sido "humilhado" pelo Brasil.

 

Nos portões da embaixada brasileira em Roma, dezenas de manifestantes protestaram ontem contra a decisão brasileira. Cartazes traziam inscrições como "Vergonha". "Itália quer a Justiça" e "Battisti é só um assassino". A manifestação foi organizada pela entidade Itália Jovem, ligada ao partido de Berlusconi.

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