Para historiadora, arquivos indicam centros de tortura no Exército

Heloisa Starling revela dados oficiais sobre espaços clandestinos e contradiz Forças Armadas, que negou existência de instalações

Gabriel Manzano, enviado especial, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2014 | 12h30

Inconformada com as Forças Armadas,  que entregaram à Comissão Nacionalda Verdade um relatório de 455 páginas negando a existência de centros de tortura em suas instalações, a historiadora Heloisa Starling, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, fez uma palestra mostrando, com detalhes, o contrário.

No último evento do dia do 9º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, na noite dessa terça-feira, 5, a palestrante apresentou dados obtidos dos arquivos do próprio Exército sobre três centros clandestinos de tortura e um organograma que revela a cadeia de comando que ligava esses centros ao CIEX, do Exército, este aos ministros militares e os ministros à Presidência da República. "Ou seja, as informações existem", concluiu a professora para sua plateia no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde abordou o tema "1964: um balanço".

Na exposição, Heloisa Starling mostrou fotos de três desses centros -- a Casa Azul, no Araguaia, a Casa do Ipiranga, em São Paulo, e a Casa de Itapevi, no interior Paulista. "A Azul foi a maior da ditadura e foi construída em um terreno do governo. Ali, ninguém sobreviveu", disse ela. "A do Ipiranga era para administrar os infiltrados. Hoje é um depósito de bebidas", acrescentou.

As investigações por ela relatadas são parte do Projeto República, ainda em andamento na UFMG, e foram repassadas em abril à Comissão Nacional da Verdade.

Da mesa participaram ainda a cientista política Maria Celina de Araújo, hoje na PUC-Rio, e o professor Anthony Pereira, do King's College de Londres. Maria Celina abordou as mudanças na imagem que se tem hoje do período militar e Pereira detalhou as tentativas do governo americano - em vão - para convencer o presidente brasileiro em 1963-64, João Goulart, a afastar a esquerda de seu governo, antes de decidir apoiar o golpe de 31 de março.

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