André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Para governo, pressão tucana é jogo de cena

Planalto encara cobrança do PSDB pelo fim de ‘bondades’ como um ‘discurso para a plateia’

Ricardo Brito, Adriana Fernandes e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2016 | 05h23

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto minimizou nesta quinta-feira, 4, as críticas feitas por líderes do PSDB de que o governo interino de Michel Temer está sendo condescendente com o afrouxamento do controle dos gastos públicos. Reportagem do Estado mostrou que alas tucanas cobram que a gestão do presidente em exercício deixe de fazer concessões após a votação final do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff.

Na avaliação de interlocutores de Temer, as queixas do PSDB não foram feitas diretamente ao Planalto e significam mais um “discurso para a plateia” e uma “pregação interna”. Auxiliares do presidente em exercício lembram que os tucanos apoiaram a aprovação dos projetos de reajuste do funcionalismo. Também citam o fato de o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), ex-promotor, ter sido um dos que articularam, no projeto de renegociação das dívidas dos Estados com a União, a retirada do Ministério Público estadual das contrapartidas.

Sampaio é aliado próximo de Aécio Neves no PSDB. O senador mineiro, presidente nacional da legenda, tem feito críticas reservadas ao que chama de “leniência” e “flexibilidade” do governo no ajuste das contas.

O Planalto avalia ainda que o pano de fundo das críticas é a sucessão presidencial de 2018, na qual o governo poderia despontar com dois candidatos: o próprio Temer, conforme defendido em entrevista ao Estado no domingo pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles – que fez recuos no projeto da renegociação das dívidas.

Para o governo, houve um “exagero” nas reclamações e não há qualquer cenário de crise com os tucanos, considerados aliados importantes. Tanto é assim que Temer tentou jantar na terça e na quarta-feira desta semana com Aécio e outros parlamentares da legenda. Porém, por desencontro de agendas, o encontro foi transferido para a próxima semana.

O governo também atuou durante o dia para delimitar as críticas à entrevista e ao discurso do senador José Aníbal (PSDB-SP), suplente do chanceler José Serra. Ontem, Aníbal defendeu um posicionamento “inflexível” de Meirelles para impedir a aprovação de concessões a projetos do ajuste fiscal, em especial da renegociação das dívidas. A fala de Aníbal, representante da ala serrista do PSDB, teve aval do presidente do partido.

O líder do governo no Senado, o tucano Aloysio Nunes Ferreira (SP), conversou com Aécio e com o líder do PSDB na Casa, Cássio Cunha Lima (PB), para manifestar que o Palácio do Planalto está atento a eventuais concessões.

‘Fechar a torneira’. Além das declarações de Aníbal, o Instituto Teotônio Vilela, braço de formulações teóricas do PSDB presidido por ele, publicou um texto em que afirma que o governo Michel Temer precisa “fechar a torneira dos gastos”, uma vez que “a gaveta das bondades continua sem ferrolho”.

Aécio, por sua vez, recebeu a visita do presidente da Câmara em casa. Na conversa, eles concordaram que há uma preocupação com a postura que o governo vai adotar após o impeachment. Maia tem atuado para distensionar o clima entre Temer e o PSDB, partido com três potenciais presidenciáveis – Aécio, Serra e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, tentou cumprir essa função de apaziguar os ânimos. “O PSDB tem um ministério importantíssimo, quem sabe o mais importante, tem a liderança do governo no Senado. Claro que alguém pode questionar algum tipo de ação do governo, não temos compromisso com o erro. Se amanhã o presidente Michel entender que deva ser mudada alguma posição, certamente mudará. Por enquanto, não há nenhuma mudança”, disse Padilha durante passagem pelo Rio. / COLABOROU LUCIANA NUNES LEAL

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