Para FHC, denúncias contra governo não afetam credibilidade do País

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso rejeita a interpretação de que a credibilidade do Brasil no Exterior possa ser arranhada pelas recentes denúncias a integrantes da equipe econômica. "Temos maturidade suficiente para diferenciar o que é uma questão tópica, pontual do que uma questão global", afirmou. Para ele, as denúncias não preocupam os investidores estrangeiros e, portanto, não seriam restrições ao crescimento. O ex-presidente disse que não se deve fazer essa associação, como estratégia de fugir do problema. Como cidadão, ele pediu, "mais transparência".Em palestra no Instituto Roberto Simonsen, ligado à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), FHC destacou a importância da credibilidade no contexto global. A partir de 2002 e ao longo de 2003, de acordo com ele, o Brasil perdeu investimentos externos, porque ficou "ziguezagueando" com "idéias fora do lugar". "Agora está melhorando", disse. Para uma platéia de pesos pesados da indústria de São Paulo, que não economizaram elogios ao ex-presidente, FHC advertiu: "Se não tem confiança aqui, não tem confiança lá fora. Se nós não investirmos, eles não investirão".FHC falou sobre as "Perspectivas do Desenvolvimento Brasileiro" e mostrou otimismo com o futuro, mas disse ter uma preocupação básica: "Nós entramos sempre tarde na festa". Após o Brasil ter ficado para trás dos então Tigres Asiáticos nos anos 70 e 80, o ex-presidente teme que China, Índia e Rússia aproveitem melhor a janela atual. "As oportunidades no mundo de hoje se abrem e se fecham muito rapidamente", alertou. Para evitar que isso ocorra, FHC disse que a solução não é apenas econômica, mas envolve um conjunto de mudanças mais amplas. "Uma taxa de juros menor não vai resultar em crescimento sustentado", afirmou, embora tenha dito que o juro ainda é alto.O ex-presidente destacou alguns pontos a serem enfrentados. A inovação tecnológica deveria ser uma prioridade do País. Essa não é, segundo ele, uma tarefa apenas do governo, mas também da iniciativa privada. "As idéias estão muito distantes dos bens", disse. O respeito à regra de lei é o segundo e, nesse ponto, "estamos tateando". "À medida que houver dúvidas sobre a interferência de uma autoridade numa decisão, quem vai colocar bilhões num país distante?", indagou, referindo-se ao que dizem os investidores.A incorporação da economia brasileira ao mercado global, com desenvolvimento interno, é outra prioridade citada por FHC. De acordo com ele, ainda restam dúvidas sobre essa simultaneidade. O ex-presidente ainda destacou a indefinição geral do País sobre questões, como Alca e Mercosul. "Como temos dúvidas, ficamos hesitando e não tomamos nenhuma decisão", disse, ressaltando que a crítica valia para ele mesmo quando na Presidência do País."Mas nós estamos avançando e não estou aqui para pregar pessimismo, porque não é o que eu acho. Não podemos olhar apenas para os aspectos econômicos", declarou, ponderando que o Brasil já demonstrou ter perspectiva efetiva de crescimento, até porque tem capacidade de resistência provada em crises vividas e superadas. "Não tenho apreensão desde que tenhamos consciência de que é preciso um trabalho paciente e persistente", acrescentou. Ainda é preciso, segundo ele, que "a sociedade amadureça e não se diga cansada de vez em quando, e aposte em milagres".

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