Para famílias, Petrobras não se empenhou em resgatar corpos

Parentes dos dez funcionários da Petrobras mortos durante as três explosões na plataforma P-36, dia 15, acusaram a empresa de não se ter empenhado para resgatar os corpos das vítimas.Sob forte comoção, familiares discursaram na frente da base da Petrobras, em Macaé. Duas mulheres chegaram a passar mal quando souberam que a embarcação afundara e não haveria mais chances de recuperar os corpos.Nesta quarta-feira, as viúvas jogarão flores no mar em homenagem às vítimas.Viúva do operador Emanuel Portela Lima, Luzineide Santana Lima, qualificou a estatal de "inconseqüente, irresponsável e gananciosa". "Para a Petrobras, os funcionários não são pessoas, apenas números de matrícula", disse.Ela contou que veio a Macaé porque fazia questão de enterrar o corpo do marido em sua cidade natal, São Sebastião do Passé, na Bahia. "Deus me deu forças para vir e lutar pelo meu marido. Eu queria levar seu corpo para casa", disse Luzineide, que teve dois filhos com Lima, um de 13 e outro de 7 anos. "Como é que eu vou explicar para os meus filhos o que aconteceu?", perguntou.Lima trabalhou durante quinze anos na empresa e, segundo sua mulher, chegou a ficar três meses no Canadá fazendo um curso para a instalação da P-36 no Brasil. "Ele me contava que muitas coisas tiveram de ser corrigidas na plataforma pela equipe brasileira no Canadá", revelou.Ivanir Peixoto, casada com o operário Mário Sérgio Mateus, que morto no acidente, discursou no carro de som do Sindicato dos Petroleiros pedindo justiça. Ela questionou como foi possível para os mergulhadores descerem 50 metros abaixo da plataforma para tentar salvá-la e não poderem mergulhar cinco metros para resgatar os corpos que estavam presos na coluna onde aconteceram as explosões.Ela acusou a companhia de não ter interesse em recuperar os corpos de seus trabalhadores.As viúvas dos mortos vão nesta quarta-feira à plataforma P-23 - perto do local onde estava a P-36 - para jogar flores no mar. Após a homenagem será celebrada uma missa em intenção das vítimas na Igreja de Macaé.As famílias dos operários mortos souberam que a P-36 havia afundado enquanto conversavam com a governadora em exercício no RJ, Benedita da Silva (PT). "Foi uma comoção muito grande, todos começaram a chorar e a dizer ´acabou, acabou", contou Benedita, que fora à Macaé levar solidariedade às famílias das vítimas.A governadora disse que momentos antes de receberem a notícia, os parentes das vítimas estavam reivindicando ajuda para fazer a empresa retirar os corpos dos mortos da embarcação."Agora, queremos que o governo federal tome todas as atitudes para investigar as causas deste acidente", disse a governadora, que decretou luto oficial de dois dias no Estado.Para o presidente do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, Fernando Carvalho, o fato de os corpos não terem sido resgatados foi a pior coisa no afundamento. "O que representa a maior dor nisso é o fato de não podermos sepultar os corpos de nossos companheiros". Carvalho também estava com as famílias dos funcionários mortos quando chegou a notícia do afundamento. No início da noite, a juíza das 8ª e 9ª Varas de Órfãos e Sucessões do Tribunal de Justiça do RJ, Márcia Capanema de Souza, concedeu liminar à família do operador Charles Roberto Oscar obrigando a Petrobras a regatar os corpos das vítimas da explosão da plataforma P-36, em 24 horas. Se não cumprir a ordem a estatal será multada em mil salários mínimos por dia. A plataforma está a mais de 1.300 metros de profundidade."Na absoluta impossibilidade de fazê-lo (o resgate) de imediato, deverá a ré, no mesmo prazo, apresentar ao juízo plano de resgate especificando os prazos necessários para tal", escreveu a juíza.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.