Para ex-chanceler, EUA estão revendo sua política externa

Ao afirmar, em entrevista concedida ao Estado e a outros quatro jornais latino-americanos, suas preocupações com a pobreza da região e admitir que há um forte protecionismo em seu país, o presidente George W. Bush deixa claro que os EUA estão reavaliando sua política externa. Essa é a avaliação do ex-chanceler Celso Lafer."É a consciência de que no mundo de hoje, interdependente, a grande potência não pode mais atuar unilateralmente", diz Lafer. As respostas dadas por Bush, segundo ele, "refletem sua preocupação com a idéia de antiamericanismo e seu empenho em sensibilizar a agenda interna norte-americana na região". Na conversa, Bush demonstrou "que a percepção de seu governo pela América Latina, nestes últimos meses, está um pouco melhor", acrescenta o embaixador Rubens Barbosa. Tendo servido em Washington durante o governo Fernando Henrique Cardoso e no início do governo Lula, Barbosa - que antes foi embaixador em Londres - conhece pessoalmente e tem boa impressão do número dois da diplomacia americana, John Negroponte, e do atual encarregado de América Latina, o secretário-assistente Thomas Shannon."É uma equipe que conhece a região e tem noção da baixa prioridade que o continente vem tendo nas recentes políticas da Casa Branca". Ambos sabem, prossegue o embaixador, "que a longa abstinência política dos EUA no continente permitiu ao presidente venezuelano Hugo Chávez ganhar espaço e ampliar seu raio de ação"."Mas ao fazer as coisas do modo com vem fazendo, ele está chavizando sua viagem e isso é ruim para ele", adverte outro ex-embaixador nos EUA, Roberto Abdenur - que deixou o posto em janeiro para se aposentar. No essencial, Abdenur diz concordar com a argumentação de Bush sobre o papel do Estado - sem o seu radicalismo, "pois há muitas ações competentes pelas quais responde o Estado, como a atuação da Petrobrás no Brasil, por exemplo".Mas "do jeito que vão as coisas na Venezuela", acrescenta, "está claro que, recorrendo sempre a saídas estatizantes, o horizonte não é bom". Mas o presidente Bush, segundo ele, se mostra um tanto precipitado ao tornar o colega venezuelano o grande assunto de suas declarações. "Quanto mais critica e fala de Chávez e de seu bolivarianismo, mais ele o valoriza. Assim ele está entrando na agenda do Chávez". Na questão do etanol, o presidente americano parece deixar de lado suas preocupações com o meio ambiente, adverte Celso Lafer. "A visão dele é de segurança econômica, sem dar a importância devida ao tema ambiental. E este deveria estar em sua agenda", afirma. Na visão dele, caberia ao lado brasileiro realçar, além da dimensão econômica, a do desenvolvimento sustentável.Futuro de CubaA afirmação de Bush de que, no caso de Cuba, não basta trocar pessoas, mas todo um sistema de governo, e que cabe ao povo cubano decidir seu futuro, soou a esses diplomatas apenas como retórica. "Não vejo muitas mudanças", observa Abdenur. "O que é lamentável é que, na prática, as ações americanas nas relações com o país de Fidel Castro são determinadas pela lei Helms-Burton". Essa lei, aprovada pelo Congresso americano em 1996, estabelece que as relações entre os dois países só voltarão a se normalizar quando os cubanos tiverem liberdade para escolher diretamente seus governantes. Existe nela até um item que determina que se depois de Fidel Castro o controle político estiver com seu irmão Raul, os outros artigos da lei continuarão em vigor. Quanto ao antiamericanismo admitido pelo presidente Bush, Barbosa observa que "o que há é o antagonismo de algumas pessoas, não de todo um país". E, de qualquer modo, ele não será reduzido com pacotes de ajuda como o anunciado anteontem, com assistência a alguns setores e com valores modestos. "As medidas vieram tarde e são muito pequenas", diz o embaixador.

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