Para evitar vaias, Lula cancela agenda na região Sul

Presidente muda roteiro de viagens e vai lançar PAC do Saneamento no Nordeste, onde é melhor avaliado

Leonencio Nossa, da Agência Estado,

23 de julho de 2007 | 19h01

A preocupação do Planalto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja alvo de vaias e protestos modificou a agenda presidencial. Lula decidiu mudar o roteiro de viagens de lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Saneamento Básico e da Habitação. Foram tiradas do cronograma previsões de eventos na região Sul: Porto Alegre - cidade de onde saiu o avião da TAM que se acidentou em Congonhas -, Curitiba e Florianópolis. No lugar, entraram capitais nordestinas onde o governo é bem avaliado: Natal, Aracaju, João Pessoa e Teresina.   Veja também:   Não há hipótese de a verdade não vir à tona, diz Lula  Lula promete investigação sobre tragédia  Leia a íntegra do Café com o Presidente Lula pode trocar Pires e presidente da Infraero nesta semana Participe e dê a sua opinião sobre a crise aérea Todas as notícias sobre o maior acidente aéreo do País      A princípio, Lula só irá à capital gaúcha depois de uma viagem a países da América Central, que vai de 5 a 10 de agosto. O presidente deveria lançar o PAC no Sul na semana passada, mas cancelou depois da tragédia em Congonhas. Auxiliares do presidente se esforçaram para justificar o fato de Lula priorizar, nesta semana, as capitais nordestinas. Primeiro, eles disseram que havia problema nos acordos com governos e prefeituras de Santa Catarina e Paraná. Depois, afirmaram que a mudança de roteiro levava em conta uma série de complicações regionais no Norte, Nordeste e Sul.   Em junho, Lula havia cancelado viagens do PAC para São Paulo e Belo Horizonte, pois os técnicos do governo avaliavam os estudos de saneamento apresentados pelos governos paulista e mineiro. Mas as duas cidades foram mantidas na agenda do presidente, que não optou em viajar para outros lugares. Desta vez é diferente. Até esta segunda-feira, não havia informação se Lula poderia viajar para São Paulo ou Porto Alegre, para participar de alguma cerimônia em memória das vítimas de Congonhas.   Lula também cancelou a viagem que pretendia fazer ao Rio, para encerrar o Pan. Irritado com as vaias que recebeu na abertura dos jogos, há duas semanas, no Maracanã, Lula decidiu não participar da festa.   Diante do caos aéreo, Lula estará nesta quinta-feira, às 11h30, em Aracaju, e às 15h30, em João Pessoa. Nesta sexta-feira, o presidente lançará o PAC do Saneamento Básico e da Habitação em Natal, às 11 horas, e em Teresina, às 16h30. Dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) se deslocaram, no final de semana, para reconhecer a área que será visitada pelo presidente.   Isolamento   O acidente com o avião da TAM resultou no mais longo isolamento do presidente desde a primeira posse dele, em janeiro de 2003. De terça-feira para cá, Lula evitou contatos com platéias, ainda que formadas por convidados. A imagem dele só foi vista pelo público na gravação do pronunciamento sobre a tragédia divulgada em rede nacional de televisão na última sexta-feira e nesta segunda, pela internet, nas fotografias do encontro que teve com o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Das emissoras de televisão, só a estatal Radiobrás teve autorização de entrar no gabinete. Há uma semana o presidente não aparece em solenidades públicas.   A agenda do Planalto foi totalmente alterada. Foram suspensas as tradicionais solenidades com claques petistas para anúncios de medidas de pouco impacto dos ministérios, realizadas com a presença de Lula nos salões Nobre, Leste e Oeste do palácio. Nesta segunda, por exemplo, ele passou o dia trancado no gabinete do terceiro andar, em reuniões e encontros sobre a crise aérea. O presidente, porém, tem evitado comentários públicos sobre o caos nos aeroportos.   'Terreno amigo'   "Lula está muito preocupado com a repercussão negativa. Ir para o Nordeste é mais fácil, pois lá ele é mais popular. Está indo para um terreno amigo", afirmou o professor David Fleisher, analista político da Universidade de Brasília (UnB).   "O risco de represálias piorou bem depois do episódio com Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência, mas Lula já havia mostrado pulso fraco quando resolveu não falar publicamente após o acidente da TAM. Ele tem medo de enfrentar represálias, deixou isso claro quando fugiu das vaias na abertura dos jogos do PAN e reforçou a tese quando decidiu não dar as caras em São Paulo", acrescentou o analista.   Dois dias após o acidente, Garcia foi flagrado em seu gabinete fazendo gestos obscenos depois de assistir a uma reportagem da TV Globo que denunciava um defeito no sistema de frenagem da aeronave da TAM, detectado dias antes do acidente. A reação do auxiliar de Lula ganhou repercussões negativas e recebeu ataques contundentes por parte de familiares das vítimas.   Sob intenso tiroteio, o presidente só falou à nação três dias depois. Fez o pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, mas ainda não sentiu o clima das ruas, que ele tanto gosta de medir. Há dez dias, no Rio, Lula já havia protagonizado uma cena constrangedora. Ele deveria ter anunciado a abertura dos jogos do PAN, mas vaias endereçadas a ele, no estádio do Maracanã, fizeram com que ele não cumprisse o ritual.   (Com Reuters)

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