Para evitar despejo, grupo decidiu se organizar

Quilombo Família Fidelix, que migrou da fronteira do Uruguai, também busca reconhecimento

Elder Ogliari, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

Em Porto Alegre, o Quilombo Família Fidelix tem trajetória semelhante ao Família Silva, primeira área de descendentes de escravos a ser reconhecida no País em zona urbana. O grupo migrou do antigo Rincão dos Negros, em Sant?Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, para um terreno público do bairro Azenha, na década de 70, em busca de melhores condições de sobrevivência. Depois de resistir a uma ação de despejo movida pela prefeitura em 2003, a comunidade percebeu que poderia se fortalecer se fosse reconhecida como quilombo, recorda o líder Sérgio Fidelix, enquanto aguarda a emissão do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) pelo Incra para os próximos dias."Quando toda a documentação estiver pronta, poderemos usufruir das políticas públicas de saneamento e habitação e até de financiamentos internacionais para programas de geração de renda", anima-se. Também estão localizados na capital gaúcha o Quilombo Alpes, com 74 famílias, no bairro Glória, e o Quilombo Areal, com 79 famílias, no bairro Menino Deus. Atualmente, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) trabalha na regularização de 38 quilombos no Estado e tem indicativos da existência de pelo menos 126, a maioria rural.Para o historiador Mário Maestri, a presença de vários quilombos no Rio Grande do Sul não surpreende. Ele destaca que a região estava entre as grandes províncias escravistas e só teve o seu perfil étnico mudado pelo grande fluxo migratório europeu, com alemães, italianos e poloneses. Sem ter se debruçado sobre as razões de Porto Alegre ter, no momento, mais processos de reconhecimento de quilombos do que outras capitais, acredita que "as condições são iguais, mas as comunidades gaúchas parecem estar mais organizadas e articuladas".ESCALADA Desde 2004, quando começaram a ocorrer os reconhecimentos oficiais, 1.289 comunidades quilombolas foram cadastradas pela Fundação Cultural Palmares. Organizações não-governamentais acreditam que o número possa chegar a 5 mil. A maioria está em zonas rurais, mas a demanda cresce também nas áreas urbanas.Além dos quatro de Porto Alegre, a Fundação Cultural Palmares já emitiu certificados de reconhecimento para três quilombos urbanos em Belo Horizonte (MG), quatro em Cuiabá (MT), três em Campo Grande (MS), dois no Rio de Janeiro, um em Santa Luzia (PB), um em Olinda (PE) e um em Aracaju (SE), totalizando 19.

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