Para especialistas,crise da dengue no Rio pode ter longa duração

A epidemia de dengue no Rio deJaneiro, que já matou 48 pessoas em 2008, pode se prolongar portodo o ano se a população não for ensinada a combater amosquito transmissor da doença, alertaram especialistas nestaterça-feira, enquanto pacientes ainda formam longas filas emhospitais atrás de tratamento. Os pacientes, nas filas ou já internados, são, em suamaioria, crianças que ficam mais expostas às picadas domosquito "Aedes aegypti", segundo os médicos. A dona-de-casa Naira Magalhães está com os dois filhos, de8 e 9 anos, internados desde a semana passada com dengue nohospital estadual Albert Schweitzer. Antes dos filhos, o maridojá havia sido infectado. Segundo ela, o caso é o mesmo em toda a vizinhança emRealengo (zona oeste), onde ainda não houve nenhuma inspeçãodos agentes antidengue. "Perto da minha casa passa um rio e fica cheio de lixofazendo poça. Os moradores não têm condição de limpar o rio.Nunca houve uma visita de ninguém para fazer uma limpeza",disse ela, dentro da enfermaria criada no hospitalespecialmente para crianças após o aumento da demanda. De acordo com o pesquisador da Fundação Oswaldo CruzAnthony Guimarães, especialista em entomologia, as medidasemergenciais anunciadas esta semana pelo Ministério da Saúde epelos governos municipal e estadual não são efetivas paracombater a doença, uma vez que os mosquitos já estãoespalhados. O problema foi a "negligência" na prevenção. "Se nada for feito para educar a população a respeito docriadouro do mosquito, podemos ficar o ano todo com esseproblema", acrescentou. Na segunda-feira, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão,anunciou um pacote de medidas para conter a doença, incluindo oenvio ao Rio de Janeiro de centenas de funcionários de saúde deoutros Estados. Nesta terça, o ministro da Defesa, NelsonJobim, confirmou a ajuda das Forças Armadas, que vão contribuirem duas frentes: combate ao vetor e instalação de barracas decampanha para atendimento primário. Nas tendas de hidratação, inauguradas de emergência pelogoverno estadual na segunda-feira, os doentes formavam filasnesta terça. Nos hospitais da cidade, em especial na zona oeste--região de maior incidência da doença-- o panorama se repetia. As 48 mortes por dengue confirmadas no Rio de Janeiro, atéagora, em 2008 já superam os 31 óbitos ocorridos no Estado emtodo o ano passado. Desde o início do ano, já foram mais de 32mil casos de dengue registrados no Estado. A capital é o localcom o maior número de óbitos, com 30. "Depois que você passa por uma grande epidemia, fica asensação de que passou o problema. Na verdade, não foi feitocoisa alguma. Agora estamos vivendo uma nova epidemia", disse opesquisador. No hospital estadual Albert Schweitzer, onde duas pessoasmorreram de dengue este ano e um bebê de 7 meses morreu comsuspeita da doença, o número registrado de casos da doença pordia chegou a 50 na última semana. A baixa incidência da doença nos anos posteriores àepidemia de 2002 também foi um dos motivos considerados para onovo surto, uma vez que as medidas de prevenção foramfragilizadas pela população, de acordo com o diretor dohospital, Cesar Fontes. "Se não houver mosquito, não tem doença. Se deixarmoscondições favoráveis para o mosquito, a doença aparece. Adoença não é atacada em sua origem, que é o mosquito", disse àReuters o diretor do hospital. "Não há outra forma de combater a dengue que não sejacontrolando o vetor. Aqui no hospital nós já estamos na ponta,controlando o surto", disse o médico. "Se a gente deixacondições ideais para o mosquito, o criadouro pode durar atédois anos." Segundo o pesquisador, o atual surto da doença é o pior noEstado desde 2002, quando 91 mortes aconteceram em decorrênciada doença, em mais de 280 mil casos. Aquela epidemia, de acordocom Guimarães, é um dos motivos para o alto número de mortesneste ano. "A epidemia na cidade desta vez é do tipo 2. Essas pessoasque morrem de dengue hoje já estiveram expostas a outro tipo dovírus antes, provavelmente nas grandes epidemias de 2001 e2002", afirmou Guimarães à Reuters.

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